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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Um sapo na passerelle

João-Afonso Machado, 09.02.20

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Estranha manhã de vésperas primaveris. Sobre a humidade, sobre o viço da relva, num verde calado e quieto, o corpo estendido e as pernas dobradas, o pé no ar tremendo como uma negaça. A ribeira corria perto.

Não era maré de visões aladas. A ideia nascera muito cedo, impaciente do sol, do despertar dos répteis e anfíbios. Mais precisamente, era o velho, pesadão, sapo rugoso - já alguém o vira por ali - que a espicaçava, esse buraco aberto no seu álbum. E por ele aguardava, a máquina fotográfica a postos, toda a ciência da espera concentrada no momento adivinhado.

Valeu o esforço. Num tempo não somado, no mesmo plano da sua horizontalidade, ponderando cada movimento das patas, o bicho descomunal, vegetativo, uma rã disforme, marciana, inofensivamente vinha de lá, a boca um risco encurvado, o olhar como dois faróis de nevoeiro. A máquina disparou, disparou, o sapo caminhava sempre adiante. Decerto sabedor do seu destino, incapaz de manobras rápidas e desesperadas, convivendo com a morte na resignação de uma sua parente mais chegada.

- É desta que vou? Chegou a minha vez?

- Não, bicho, faz pose, alevanta o espírito, dá-me apenas uns retratos.

- Nem sequer por troca com um cigarro aceso entre as minhas beiças sempre fechadas?

- Qual cigarro! Vá, negreja-me essa vista, faz como se eu não estivesse aqui...

O sapo deu o melhor de si. Quase emagreceu. Por segundos manteve a pata no ar, como um elefante ensinado, perdigueiro de moscas. Sujeitou-se a serem-lhe contadas todas as tonalidades das rugas. Até mesmo que uma mão bem intencionada lhe medisse a moleza do ventre.

Seguiu, enfim, o seu caminho. Orando por outros encontros assim pacíficos como este. E guardando, preciosa, na sua audição, a voz levezinha que, uma vez na vida, o afastara do seu ancestral medo dele próprio, da sua fealdade.

 

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