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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Um rio quer-se com peixe"

João-Afonso Machado, 06.02.20

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Chove que Deus a dá. Aqui em Famalicão sem dramas, o Pelhe não tem a força das catástrofes, nem sequer de um breve momento de tensão, coisa pouca, uma inundação, o apelo aos nossos bombeiros. Às vezes, cogito, a nossa terra é morna de acontecimentos, faz-nos falta o recurso a um bote salva-vidas, a qualquer emergência avivando os dias – contando, é claro, pessoas e bens não sofressem as consequências da intempérie.

Famalicão não dispõe, infelizmente, do que a marque na sua identidade. Também não é acastelada… Nem sede de bispado… É o que somos e temos de nos haver. Criemos assim a nossa história. In casu, a do secular Pelhe.

Vão lá muitos anos, entrevistei para um semanário local o saudoso Sr. José Brandão, o proprietário da então Quinta da Maia. Em tudo nele eram saudades.

Saudades políticas vestidas de azul e branco. Saudades das suas pescarias às trutas na ribeira que vem de Brufe e desemboca no Pelhe. Saudades de águas limpas, límpidas, povoadas de peixe. Tudo isto umas décadas antes do parque da Devesa, a vincar a minha ignorância sobre o pré-diluvio da poluição. Quem me ia dando nota de como corria a pesca por cá era o Sr. António Brandão, também de estimada memória, o meu armeiro e o homem que tudo sabia sobre os rios minhotos. – Sr. Brandão – perguntava-lhe eu, amiúde, - Para uns peixitos, coisa próxima, o que me indica?....

Eram tempos em que, sem óculos, dava o nó ao anzol e punha o isco – o morcão, ou o asticot, dito de forma mais fina. O qual o amigo Sr. Brandão me fornecia, guardado vivo em arca frigorífica. Estou a falar, para quem não saiba, de larvas da mosca vareja.

E um dia, por então, - No Pelhe estão a sair uns escalos de bom tamanho – confidenciou-me o Sr. Brandão. - Pedi-lhe mais desvendasse o segredo. Eram algures, já não sei localizar onde, ainda em Gavião, a sua freguesia, sob uma ponte, entre o casario. Em uma tranquila tarde para lá me dirigi com os meus dois filhos, um balde e, além do material necessário, uma cana de canelon, então um peça de “museu”, compra da minha juventude no Sr. Freitas («de baixo») pela exorbitante quantia de 240$00!

Encontrámos uma represa, o peixe entalado, quase enlatado, decerto esfaimado. Lembro bem, o carro estacionado, um silêncio cúmplice, as casas debruçadas sobre o rio… O meu temor, estaríamos a cometer alguma ilegalidade?... Mas os escalos chamavam por nós e, num instante, o balde enchia-se deles, vivinhos, - opulento bródio - a rabiar e com destino marcado, o grande lago da Casa dos meus Maiores.

Prodigiosa pescaria! Grande proeza para a miudagem! Os escalos postos no lago, regalados por vasta nutrição, cresceram, encorparam-se, já falavam de igual para igual com as carpas e similares. Somente não se adaptaram, quero dizer, no seu ADN viajavam outras correntes, sem fim à vista, para os indispensáveis efeitos reprodutivos. Os que não pereceram às bicadas das garças morreram de morte natural, levados pela idade, - jamais mercê da poluição.

Assim este apontamento serve as recordações dos meus queridos filhos, então crianças, hoje homens andarilhando pelo mundo. E serve também para a interrogação que me atormenta: onde estão os peixes (pardelhas e góbios) há pouco atrás tão visíveis das pontes do parque da Devesa? Porquê o actual silêncio piscícola do Pelhe?

 

(Da rúbrica Ouvi nas Caminhetas, in Opinião Pública de 06.FEV.2020)

 

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