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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Um português em Aberdeen

João-Afonso Machado, 24.02.20

ABERDEEN - JARDINS.jpg

Urgia tomar de assalto aqueles muros, viseira em baixo, a espada em riste e um salto épico, um cavalo de mitologia a quem, por mera vingança do cavaleiro vencedor, seria dado por pasto o relvado todo dos vencidos, a suave fragância das pétalas de centenas de rosas isabelinas, directamente oriundas dos milagres portugueses. Isto congeminava ele, aliás apeado, dono nem sequer de um burriquito de moleiro, às voltas com dois pints, a fazer-lhes o câmbio, - dois pints igual a uma girafa - e resmoneando sempre.

Foi a relva e a sua Rainha Santa, uma vez mais a despejar canteiros do seu colo, que o tranquilizaram. Poria de lado a medieva, barulhenta armadura, sempre enferrujando tais lides de paixão. Não, insinuar-se-ia, penetraria o temível baluarte na beatitude de um jardineiro. Com toda a astúcia dos Robin Hoods e Little Johns.

E a ideia configurou-se-lhe num instante. Roupa velha era o que não lhe faltava. Destacava mesmo o velho chapéu de palha já podre do desuso nestas praias cinzentas e ventosas. Enfiaria os dedos em terra de vasos e trá-los-ia à superfície de unhas negras como a capa de um presbítero. Durante uns dias não se lavaria, a ajuntar crostas e a olear o cabelo. Nem se barbearia. Trataria toda a gente por "bocê" e cuspiria para as mãos, agarrado ao sacho, mais uma ou outra escarreta no chão. Cobraria baixo, que esta malta é ancestralmente sovina. E, assim andrajoso, conseguiria decerto a almejada entrevista.

Seria quando ela se chegasse com instruções para a limpeza dos canteiros e as podas das sebes. Numa envolvente mudança de voz dar-se-ia a conhecer, pobre mas académico, um manancial de palavras corteses, meigas e meridionais, a saltitarem-lhe do coração para a boca. Deste modo comprovaria a boa essência das longas e já antigas trocas de olhares entre os dois.

Depois... bom, depois seria a hora saborosa - finalmente! - de apunhalar a governanta e o chauffer. E de ao fundo do quintal, sob a ameixoeira em flor, plantar muito na terra os seus restos, previamente retalhados. Juntinhos todos no mesmo embrulho, como embrulhados andavam ambos, raça de escoceses puritanos!, há décadas e décadas, o bairro inteiro a sabê-lo, somente Miss Marple não, perenemente vigiada, manipulada por tanta castidade só casca.

 

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