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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Um artista casado

João-Afonso Machado, 19.07.19

O CANÁRIO.JPG

Aos automóveis somente era consentido descer - a rua gozava o seu escasso movimento, a cidade fugira do calor para a praia. E nas redondezas daquela varanda, ecoando nas altas paredes dos prédios vizinhos, imperava o trinado do bichinho.

A rua era dele e do silêncio ouvido entre os seus recitais.

Foi numa dessas pausas que a senhora surgiu à varanda com um pano verde de feltro na mão. Adivinhava-se preocupada, já as luzes da ribalta se acendiam e ele, o tenor, ainda recolhido no camarim. A madame inquiria, num tom carinhoso disfarçado de aborrecido, se estava tudo bem. E ralhava-lhe, muito mansa, - Canarinho, canarinho!

Depois deixou-o só. Tratar-se-ia apenas de um momento de concentração. O canto formidável não demoraria... E, na televisão, uma assistência de concursos culinários ou de telenovelas, dessas muito exóticas em que duas mulheres são ambas as mães de uma criança só. Coisas extraordinárias vividas lá fora, muito abaixo das melodias do seu canário. O mundo - como dizer? - o mundo é outro, o tempo de vida da velhinha - sabe-o bem... - esgota-se, também já não seria agora que iria contracenar com tais espectáculos. Ora, sendo ela e o seu canarinho, na prática, sensivelmente da mesma idade, e enquanto a mercearia no rés-o-chão fornecer alpista e leite e pão e manteiga, mais um arrozito, a massa de esparguete, umas maçãs para os dois... - ri-se a senhora com os olhos muito brilhantes: - é este o meu amado; o meu marido!

E ao som daquela voz deslumbrante, sob torrentes de palmas vindas da televisão, o canário e a senhora curvam-se e agradecem estas abençoadas tardes de sossego domingueiro.

 

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