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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Thessaloniki

João-Afonso Machado, 25.10.20

Fica-me na alma a imagem do meu filho, sentado à mesa comigo, lendo uma antologia bilingue (português e grego) de Pessoa e tentando, palavra a palavra, decifrar por comparação aqueles inconcebíveis grafismos de lá. Da terra dos gatos,

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onde jantávamos, em tasquinha chã, uma salada excelente e uns nacos de espadarte azul, e os bichanos sem dono vagueavam entre as nossas pernas, de mira na caridade de umas espinhas. Digo eu, isto dos felinos será parte grande do que resta da ocupação otomana  de Tessalónica. Eles miam de lá, ainda, e as gentes também não sabem esconder alguns flagrantes traços fisionómicos. A Ásia é logo adiante, o turco continua à espreita.

(Ao contrário do meu filho, não me demoravam preocupações linguísticas, nem mesmo arqueológicas. Somente... - nunca me aventurara tão longe no Mediterrâneo; e queria sentir todos os aromas do Egeu e regiões por ele banhadas.)

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Essa a primeira atracção de Tessalónica: o baía, o seu porto, o cais envolvente. As cores pesadas de um céu abafado, águas quietas, sucumbidas ao calor, navios de grande calado dormindo. Bem se compreende, o Pensador se vá deixando continuar a pensar, eventualmente espreitando de esguelha a versão feminina do Discóbulo, arrebitadamente concâva,

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esbelta e tão próxima quão distante. Também eu enchi o olho, até porque, como pano de fundo, na mesma direcção, se mantem a Torre Branca: o símbolo máximo da cidade; outrora "Torre de Sangue", mercê das muitas execuções nela levadas a cabo, agora albina, desde que um prisioneiro assim a resolveu pintar. É mais uma recordação das invasões turcas, esta datando dos finais do século XV.

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Não esqueçamos, estamos na segunda cidade grega da actualidade, no norte macedónico, vinda ao mundo na terceira centúria A.C. Mas com Alexandre o Grande sempre zelando por si.

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Porque o passeio não é eterno, importará assinalar a magnificência da Platia Aristotelius, ainda debruçada sobre a baía,

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e continuar a peregrinação para o interior, tropeçando, a cada passo, com ruínas gregas, romanas ou bizantinas. Sirva de exemplo o Arco de Galério, ou Kamara, evocativo da vitória militar sobre os persas,

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a Rotonda de Galério, que foi mausoléu imperial, igreja cristã e hoje é uma mesquita,

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e os restos mortais do imenso Palácio de Galério, muito ao correr da Platia Navarinou,

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onde vamos topar com um leão hercúleo, absolutamente pacífico e dotado de toda a liberdade de quem não é propriedade. Ainda se vive assim na Grécia, e não faltam esplanadas e gente de bem que dê um jeitinho de razoável peso, umas sobras pró jantar. O animal, aliás, prontamente vindo a mim quando o chamei, brincou, só quis festas, nunca perdendo a expressão com que a velha Helade sempre aceitou a Tragédia e o Destino.

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Tessalónica ardeu quase integralmente em 1917. Escapou a Ano Poli, a parte alta da cidade, por onde se chega através de muitas escadinhas e becos sem saída.

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Enfim, o castelo lá no topo, velha fortaleza bizantina, significa sobretudo o apaixonado e plangente encontro da juventude, em noites que pedem meças às conimbricenses junto à Sé.

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Porque estamos numa cidade universitária, consequentemente vivida por camadas etárias ainda frescas. Rapaziada que gosta de se divertir, oriunda dos quatro cantos do mundo, uma multidão, em suma. Com anos e anos pela frente, muitos mais do que esta terceira epístola sobre os tessalonicenses... Não escrita por S. Paulo, mas pela minha caneta.

 

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