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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Telescolares recordações de Primavera"

João-Afonso Machado, 23.03.17

POSTO 145.JPG

Quando passo ali custa sempre acreditar. Quanto jaz sob aquele cerrado pedaço de cidade! Quanta quase campesina vida – indo eu nos meus doze anos… - em tanto terreno em socalcos, desde as moradias que orlavam a Estrada Nacional, no fim da Rua Conselheiro Santos Viegas, até à cadeia, hoje posto da GNR. A cadeia que nós topávamos cá de baixo, hirta lá em cima, nos seus altíssimos muros brancos, decerto para que não fugissem assassinos impiedosos, desumanos, vigiados por polícias agarrados a um fuzil o dia inteiro…

É certo, ocorriam já algumas ameaças urbanísticas. Um prédio atravessava-se numa das extremidades… comprido como um comboio, desses que têm dois andares…; e, ao meio, já servida por um estradãozito alcatroado, uma fieira de casas geminadas, a última das quais albergava o posto famalicense da Telescola. O 145. Exactamente onde funciona hoje – situem-se – o jardim de infância Machado Ruivo.

Façam, por isso, o favor de converter a Rua Monsenhor Torres Carneiro num descampado quase até ao hospital. O posto 145, bastião avançado da civilização naquelas bandas, era também a residência dos Professores D. Lídia e Adolfo Passos, os seus responsáveis-mores. Prossigamos: pintem tudo à volta com as cores da lama ou do pó, os rigores da invernia ou do abafo dos dias estivais. E, entrementes, acrescentem ao quadro as flores despontando naturalmente aos primeiros acordes primaveris. Justamente na época em que andamos agora.

A Telescola deixava-nos em casa de manhã e, à tarde, o seu quê apertados se porventura chovesse, porque não dispunha de recreio coberto. As aulas iam das 14.30 às 19.30 durante meses de escuridão à despedida. Só com a Primavera as duas turmas (uma do 1º ano, a outra do 2º) respiravam mais espaço para a futebolada e para um regresso a casa já não na forma de uma tristonha caminhada pela cerrada negritude do bosque do lobo mau. Talvez daí não antes de Março despontasse o nosso platonismo amoroso, para o qual, aliás, muito valia a destreza demonstrada nos recreios. No futebol e não só.

Ainda antes era a temporada do “hóquei em campo”. Jogado com uma bola de plástico comprada na feira e o engenho bastante para transformar um pé de couve-galega, arrancado com a raiz, num stick torcido na ponta inferior, consistente e sempre substituível, a danificar-se com alguma stickada mais devastadora, por outro congénere fabricado e burilado numa hortazita um pouco além. O mais era bola para a frente, muda aos cinco, acaba aos dez, num campo tão escorreito quanto o convés de um barco tombado. Ainda assim, a lateral da parte cimeira oferecia às meninas uma excelente perspectiva do jogo e das proezas dos jogadores. Isto nas traseiras do posto 145 da Telescola, o derradeiro antes da aridez do deserto; à frente, o campo mais dimensionado, muito rapado de ervas, o Maracanã local.

No meu ano eramos poucos varões – apenas seis, com dois dos quais fui mantendo amizade próxima; acerca das moças – hoje senhoras, algumas avós – nada acrescento. É melhor não… Sei que se namorava muito, mas por escrito, bilhetinhos entregues por portador de confiança e lidos pela comunidade em geral. Estávamos no tempo das mini-saias (fase I) e dos hot-pants, de repararmos nisso tudo e em outros predicados, nos saudosos anos do Wild World do Cat Stevens e do Yellow River dos Christie, sempre incansáveis no leitor de cassetes da Prof. D. Lídia, todas as aulas de Trabalhos Manuais com que a tarde escolar findava. Sonhos e sonhos e sonhos e recortes atabalhoados em papel de lustre, a História e o Português eram mais o meu forte.

Há muito para contar ainda. Reencontrei recentemente aqueles meus antigos professores e é o que dá. A gente põe os olhos em tantas décadas passadas e só vê vacas a pastar sob o alcatrão e as investidas das tribos guerreiras de Mões, “eles” vinham aí, badalava o rebate dos sinos…

Por isso deixo o resto para uma próxima tarde chuvosa, a rabiscar a redacção na sala, à mingua de recreio coberto…

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 23.MAR.2017)