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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Portuguesa - outra versão do hino"

João-Afonso Machado, 20.02.20

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Vão lá cinco anos abri ao público, em Antas, o meu soberbo estabelecimento – o meu escritório, o lugar das minhas letras, pobrezinhas sejam elas, sempre são as minhas, não as copiadas dos outros. As letras de um homem que não sabe cozinhar (mas sabe caçar…), um primitivo para quem é muito difícil acertar com o ovo na frigideira e estrelá-lo depois.

Nesta angústia de sobrevivência salvou-me o restaurante defronte ao meu apalaçado tugúrio – o Portuguesa.

Cinco anos passam a correr. De início, arranjar uma mesa não constituía grande problema: a gente chegava e sentava-se – pronto! Pegava na lista e escolhia. Com todo o vagar do mundo, mirava-se a vitrina do peixe, tornava-se ao menu, outras duas ou três perguntas da praxe e a escolha, finalmente, - o robalo, a dourada, a cavala ou o sargo… Peixe fresco, grelhado, bem acompanhado de batatas a murro e verduras com força. Uma vez por outra, o lombo assado, o cabrito, a feijoada à transmontana, o arroz de pato… E sacadas inteiras de sardinha, no tempo dela.

Na verdade, na minha chegada a Antas, do Portuguesa sei apenas que o proprietário, o Sr. Martinho, explorava também uma peixaria. Daí a ligação directa, que ainda agora se mantém, entre a Póvoa de Varzim e o restaurante, cimentada todos os dias em idas ao peixe, pela madrugada, decerto ainda o sol nem se lembrou de pestanejar.

(Entre duas espinhas a pôr de lado, pense-se um pouquinho no peso de um dia, e mais outro e mais outro… - a levar, a horas tais, a furgoneta por tantos e tão repetitivos quilómetros! Para voltar a tempo de um bom almoço com o bicho fresquinho!)

Certo é, o movimento das refeições foi crescendo, a clientela sempre a aumentar, reconheço, a contragosto do meu natural egoísmo, da minha apetência pelo silêncio que é o fundo negro de onde emergem todas as possíveis conversas.

Mas jamais abandonei a regularidade das minhas visitas ao Portuguesa. Essa minha fidelidade, irmã do meu advento a Antas. Quantas vezes, até para um lanchinho só!... E, entretanto, fui-me aventurando na alheira, na massa com vitela estufada, no salmão ou no peixe-espada negro. Fui variando, - nos vinhos também.

E criando amizades. Sobre elas sempre hei-de realçar a pessoa do Sr. Lima, recentemente retirado, uma voz de todos os dias em momentos conturbados de doença e morte de pessoas muito minhas próximas. Tenho, verdadeiramente, saudades do Sr. Lima, da sua prontidão em colocar na minha mesa as minhas usuais vontades – o jarro de verde branco, a sobremesa preferida, o excelente bolo de bolacha. Oxalá o Sr. Lima, pese embora a idade e a saúde menos afinada, esteja bem, descanse em casa e apareça quando calhe, para dois dedos de bate-papo.

Indo ele, ficaram os dois funcionários, o Sr. António e o Sr. Inácio. Além do mais, dois craques no futebol filosofado, porque os jantares no Portuguesa decorrem frequentemente à luz de jogos empolgantes na televisão. Já na hora do almoço a sua atitude não pode ser tão meditativa, semelhante a avalanche da freguesia. Então, vai tudo por frases meias – Frango! – Vinho? – Mousse

Aos fins-de-semana lê-se o jornal à mesa. E, em qualquer maré, ali se come o melhor prego no prato de todo o Minho. Com batatinhas fritas às rodelas. Quiçá o melhor da nossa Nação, ela inteira! É o que este “vizinho” (ganhei, entrementes tão honroso tratamento – o “vizinho”)  amiúde pede, à conta dos seus dentes que já só vão com carne da mais tenra…

 

(Da rúbrica Ouvi nas caminhetas in Opinião Pública de 27.FEV.2019)

 

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