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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Porque matam o Ave?"

João-Afonso Machado, 21.05.15

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É um traço importante na nossa região, a do Baixo Minho. Sem mais alongamentos geográficos, demarcada pelo Cávado e pelo Douro e tendo por espinha dorsal o Ave. Um rio muito de V. N. de Famalicão, como também de Guimarães, Santo Tirso, Vila do Conde. E há décadas e décadas tratado a pontapé e baldes de porcaria no seu leito.

Lembro passeios de bote na sua foz, a minha meninice povoada de transparência e peixes anafados como tubarões lá no fundo, rochoso, arenoso, encrustado de mexilhões ou em voares das algas. Imaculado. Os robalos subiam a maré como facas na manteiga, as tainhas eram pitéus, ia-se à pesca dos jaquinzinhos já de água na boca para a fritada e, quem gostasse, tinha sempre garantida a caldeirada de enguias. O cais de Vila do Conde era um verdadeiro canavial, tantos os pescadores. E, para o interior, ainda em 1976, sob a ponte de Santo Tirso, tirei uma truta, a excelência do meu repasto no dia seguinte. Mas já o caos se avizinhava, trazido pelos ventos das tinturarias. As águas do Ave adquiriram cores novas, o rio transfigurou-se literalmente em punk. Com espuma em vez de cristas cabeludas.

Depois foi a moda das ETAR’s, um movimento naif e perdulário. Centenas de “chaminés” ao longo do seu curso, centenas de milhares de contos deitados fora. Que me perdoem se exagero… Salvo melhor opinião, porém, não ocorresse a hecatombe de falências o rio teria morrido entretanto.

Sobrevieram, na realidade, tempos de melhor agoiro. A pesca regressou aos açudes e remansos do Ave. E sobre essa pesca, e o que se pescava, deixemos para outra ocasião tantas tolices cometidas. Facto é, o rio lavou-se, oxigenou-se, criou outra aparência, mais civilizada.

Até que, recentemente, regrediu desse aliviante progresso para nova vagabundagem. Sem sequer sair do concelho, basta espreitar o que corre por baixo das pontes de Caniços e da Lagoncinha ou as planuras de Fradelos. Uma imparável tristeza!

De tal maneira, as autoridades decidiram tomar medidas. A “Operação Rio Ave” foi posta em marcha pelo Comando Territorial de Braga da GNR. O objectivo: o levantamento dos pontos de descarga de poluentes e de captação ilegal de águas. A área de intervenção: entre a fronteira das Terras de Basto e o concelho de Guimarães e a nossa freguesia de Fradelos.

Inacreditavelmente os fundos do Ave são um repositório de maldades criminosas: neles jazem cães e gatos envoltos em sacos de plástico, assim condenados à morte, assassinados por afogamento!; e os restos de coelhos e galinhas, bicharada doméstica do consumo alimentar das gentes!; mais objectos, lixo diverso, desde as bolas de futebol aos bidões, pneus, trapos de roupagem, tudo o que a selvajaria de uns tantos achou poder destruir um património de todos por comodismo seu.

O “inventário” é de quem lá anda, os destacados do Núcleo de Protecção do Ambiente e da Unidade Especial de Operações Subaquáticas (incluindo um mergulhador) da GNR. A vergonha é, genericamente, nossa.

Não será de acrescentar mais. Até porque, se o Ave leva semelhantes tratos de polé, os seus afluentes também. O Este, o Pelhe, o Pele, quantas ribeiras serpenteiam pelo concelho e era suposto embelezá-lo em vez de o emporcalhar. Parece até, damos de barato o desemprego grassante e a riqueza turística que os restos mortais dos nossos cães e gatos aniquilam…

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 21.MAI.2015)

 

 

 

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