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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Outono à vista"

João-Afonso Machado, 20.09.18

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Chegando a casa depois de quase dois meses de ausência, eramos olhados com uma certa desconfiança pelas gentes do campo. Vínhamos castanhos, tisnados do sol, de um castanho suspeito, aciganado, conquanto mais loiritos, amarelados da cuca. Não que a vida na lavoura não proporcionasse também outras cores. No entanto, a prevalência, nesses casos, era o vermelhusco, a poupar a faixa cimeira das testas, onde assentavam os chapéus, e o tronco, as pernas, que a roupagem protegia dos raios solares. É claro, não se faziam contas às mãos e aos pés, tão calejados, endurecidos e enegrecidos na dura e honrada faina de todos os dias.

Sobrevinha, então, a curiosidade do que se passara «lá para as praias», se não mesmo uma pontinha de censura – que pouca-vergonha! – imaginando a imensa tropa veraneante, eles e elas, despida nas areias até ao mínimo indispensável. Estávamos a décadas, ainda, do bronzeado global, ansiosamente (e pouco sadiamente) também buscado pelos netos dos dessas remotas eras.

Idos de acentuada diferença, em que a lotação no nosso litoral estava ainda muito longe de esgotar… Ocorre-me de repente a visão de há umas semanas – a de uma jovem com o seu biquíni, estendendo a toalha no cimento de uma antiga vacaria, sob um sol inclemente mas ávida de cores mais atraentes, mais sexy; e a da capa do Crisis, What Crisis?, o LP dos velhos Supertramp…

Mas em tais épocas as coisas funcionavam em sentido oposto. Demorava mesmo algum tempo a habituarmo-nos uns aos outros, os que haviam permanecido nas aldeias e os que retornavam. Provavelmente, ainda doeriam as memórias de algum episódio mais doce, mais bafejado pela gentileza de um olhar feminino. Restava o doloroso calvário de aguardar o próximo Verão… Mas já a semana seguinte o drama se mitigara, felizmente. Bastava, para tanto, qualquer vinda à Vila, o encontro casual com esta ou aquela colega liceal, a lembrança rejuvenescida de promessas no ar, sonhos interrompidos no derradeiro suspiro do ano lectivo. Pendências de Junho e Julho…

O triângulo apaziguava-se – a praia, o campo e a Vila. Como o ciclo de vida de qualquer ave migratória. Já no horizonte se ouviam as vozes autoritárias dos professores, as tremendas alvoradas para as aulas. Mas antes ainda gozaríamos a excitação das vindimas.

O bardo era um sistema então desconhecido. O vinho nascia e brotava das ramadas, na orla dos campos, sobre os caminhos, ensombrando a oceânica poça das rãs. Sempre seriam duas dezenas de pipas, ou mais… E labuta para vários dias. Chegavam de fora reforços. Rapazes e raparigas novos, à jorna, o dia todo subindo a escada com a tesoura de poda e o cesto de vime, descendo a escada carregados de cachos, deslocando a escada para onde fosse necessário voltar a firmá-la no chão. E cantava-se, palrava-se, ao longo dos arames das ramadas, diria mesmo, namorava-se. Também se espreitava, sobretudo quando alguma cachopa se esticava um pouco mais a não deixar para trás qualquer gaipito de uvas. – Ó Se’Manel, onde tem você os olhos? Ora faça o favor de não ficar a mirar a lua que ainda não é noute! – E entre risadas e brejeirices o Se’Manel deixava em paz as pernas da moça até à próxima oportunidade de as «apreciar», como delicadamente se dizia então.

As dornas e a colheita, em cima do atrelado, levava-as o tractor à adega cooperativa. Sentia-se bem a pequenez dos dias, pelas sete e pico o sol caía já sobre as bandas do mar. Desse mar que, antes pouco, fora o centro das atenções balneares. O tempo é fulgurante! O Natal estava à vista e a idade cavalgava, com o Passado sempre atacando furiosamente o Futuro.

 

(Da rúbrica De Torna Viagem in Cidade Hoje de 20.SET.2018)