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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

O que é isso, a Pátria?

João-Afonso Machado, 31.01.16

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Nos vagares de uma almoçarada alentejana (uma delícia, bacalhau esfiapado a cavalo de fatias de pão frito) ocorreu-me a Pátria, o seu vazio de sentido. Isso mesmo, a sua real irrealidade em que a II República se sustentou entre as cruzes das cruzadas e uma História adulterada, feita de datas decoradas. Nunca fomos isso que se conta. Fomos apenas um povo genial, como ainda o somos - estonteadamente - afora os estragos irrecuperáveis causados pelo cosmopolitismo. Para apimentar a ementa e o agravo: pelos estragos causados desde os mais ofuscantes ouro e pedrarias dos Descobrimentos. Em suma, somos hoje quase nada.

Mas sentado à mesa de uma almoçarada alentejana - ou, em alternativa, de uma minhota, transmontana, beirã... - a gente percebe a terra, o mar, a planície ou as serranias; o album todo das milhentas diferenças que compõem um conjunto sólido e coerente, na tranquila sensação de a portugalidade não ser o espírito oco das palavras guerreiras - de uma guerra obviamente virtual, à moda do Solnado, a fazer tréguas aí pela meia-noite e tolerância até às duas da madrugada para os desempregados.

A portugalidade não é esse atraso bolorento, essa mediocridade, mas uma vivência de todos os dias e de todos os quatro cantos do planeta, onde quer que se oiça falar português. Não, essa tal Pátria (a do Castanheiro Patriotinheiro da Ilustre Casa de Ramires) resume-se a um muro espesso atrás do qual se escondem, e entre si regateiam meças, saudosistas e esquerdistas, Salazar e Cunhal. Portugal é o mundo, facilitado ou dificultado, em que vivemos a vida individual e colectiva. E a Nação portuguesa - essa sim, imortal, apesar de acossada pelos patriotas e os seus gémeos, os nacionalistas - a nossa integração inteligente do Passado no Futuro.

Ainda mais abreviadamente, a Nação portuguesa é o nosso eterno Amanhã. No Pensamento e na Arte, no estrutural e no condescendente, até mesmo nos lugares mais territorialmente insignificantes como a mesa dos comeres alentejanos, minhotos, transmontanos ou beirões.

 

 

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