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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"O Garantia"

João-Afonso Machado, 25.05.14

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Por artes do diabo, não me larga o espírito o fantasma do Hotel Garantia assombrando o centro de Famalicão. Falo – devido é esclarecer – como qualquer ignorante, crente nessas tontices das avantesmas. Falo de cor, em suma. Somente com a voz da saudade a abonar-me.

Dos vivos, é impossivel alguém se lembre. Mas, antecedendo-o, ali residia o Hotel Vilanovense, sobre o qual escreveu Fialho de Almeida incluir-se «no tipo de hotéis de província, feitos à imagem e sabor dos caixeiros de amostras que lá passam: cozinha porca, por onde se passa para o comedor tapando as ventas; nos fruteiros da mesa, peritas murchas e lívidos margotões por sazonar – toalha de nódoas, garrafinhas de vinho verde sem rolha, pratos rachados, contas a lápis nas paredes…».

Fialho de Almeida, se a memória não me falha, morreu em 1911. O Garantia nasceu em 1943, após um dificílimo parto cuja felicidade se deve apenas a tenazes bairristas como Amadeu Mesquita, Álvaro Folhadela Marques e José Joaquim de Oliveira. Tão depressa vinha ao mundo, tão prontamente o colocava a Imprensa da terra no estadão de um «Chiado lisboeta em miniatura»...

Convirá elucidar, jamais levou o Garantia uma vida fácil. Possivelmente pela sua sobredimensão na pequenina Famalicão de outras eras. Mas são ainda muitos os que o recordam bem esperto, povoado de clientes, se mais não fosse vindo cá a tratar das suas varizes...

Já nem sei quando ocorreu o fecho. O derradeiro. Porque aconteceram interlúdios, períodos de carência absoluta que se conseguiam colmatar com novas gerências. E tenho bem presente a imagem do Café, no rés-do-chão, já com o pano dos bilhares esburacado, mas ainda imponente nos seus vitrais, a ventoinha gigante bufando no aperto do calor, e os empregados de lacinho no pescoço, os enormes copos com guarnições metálicas e os bolos de arroz que eram o meu lanche antes de partir para mais um treino de judo...

Agora, umas luzes tristes, à noite, nesta ou naquela janela de persianas estoiradas, revelam que alguém ali habita. Asseguraram-me serem operários da empresa que o adquiriu. Mas o que foi o Garantia, a sua marca ainda mantida na entrada principal, merecia destino mais condizente.

Os tempos são de crise. Um hotel no centro de Famalicão possivelmente é inviável. Nada contesto. Somente desabafo: entre museus, galerias, fóruns, casas de espectáculo ou de acolhimento de necessitados, micro-apartamentos (em cidade de estudos universitários…), o centro geométrico de Famalicão obriga a melhor sorte a tão insigne edifício. A mais vida e a mais alegria.

 

(Na rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 23.JAN.2014)