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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"O atentado"

João-Afonso Machado, 02.11.17

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Esta já não é a terra que Cristo escolheu para repousar. O outro dia, escurecendo, um trânsito inusitado, para, arranca, arranca, para, e uma multidão de ambulâncias ao longo da Avenida Humberto Delgado, um ajuntamento delas a faiscar azul e de gente nas cercanias na central de camionagem. Pensei logo o óbvio – só podia ter acontecido um atentado! Do Daesh, por fatalidade chegara a nossa vez. Em Portugal e, ainda por cima, em Famalicão!

É claro, tornar-nos-iamos, em definitivo um lugar assinalado no mapa-mundo. Ainda assim, o acontecimento revelava-se sobremaneira desagradável, a avaliar pelo número de viaturas de bombeiros, algumas de apaga-fogos, rumando aquela e outras direcções. Querem ver que bombardearam também a estação do caminho-de-ferro? – cogitei.

Na penumbra, ainda vislumbrei um vulto de negro, correndo no passeio como quem foge da luz. Trajava vestes largas, da cabeça às pernas, e juraria escapar-se de entre elas um cano, provavelmente de uma kalash. Um terrorista! – exclamei. Mas depois, vendo melhor aquelas ancas, aquelas nalgas, conclui seria uma vizinha espavorida, cavalgando qualquer toco de vassoura, o rabo de uma frigideira, até casa. Não, aquilo não era, de jeito algum, trote de militar (m/f). E foi só por isso que não telefonei, dali mesmo, aos meus amigos monárquicos famalicenses para formarmos o indispensável batalhão.

Enfim, a Avenida permanecia bloqueada, salvo para a passagem dos bombeiros e dos VMER’s. Carros da polícia, alguns. Uns da PSP, outros dos moços da Municipal. Tal qual a Catalunha em convulsão! Famalicão tem a melhor polícia do mundo e, quando as Forças Armadas e a NATO chegassem, restar-lhes-ia ouvir a história e levar os ciúmes por uma coroa de louros que não era deles.

Teria apenas de esperar não fosse contemplado por algum rocket de última hora, a espatifar-me a carripana, observar o bastante para uma reportagem condigna e, chegando a casa, pegar na máquina dos retratos e voar de retorno, à caça de imagens, cenas lancinantes, prontas a dar a volta ao planeta a preço de ouro. Famalicão – minha terra, meu amor e minha reforma.

Assim decorreu mais meia-horita, ao longo da Avenida, até chegar a Antas, freguesia já adormecendo na maior pacatez, decerto ignorada por Alá e os seus extremistas. Mas, mal estacionei na garagem, foi um ver-se-te-avias em busca da máquina fotográfica, ainda as ambulâncias e as sirenes dos bombeiros se ouviam por todo o lado, lá em baixo. Faltava-me o fôlego para chegar à estação ferroviária, inevitavelmente transformada numa amálgama de ferro, em Calendário, mais uma freguesia mártir. Ficaria, então pela central das camionetas (digo: autocarros), o percurso todo horrorizado, meditando a sorte de todos esses desgraçados cujas famílias os esperavam em Braga, Guimarães, na Póvoa de Varzim… - É a vida – rematei, ao lembrar tinha de chegar primeiro do que o Correio da Manhã, recolher umas imagens e amanhã discutir números com a imprensa mundial.

Foi quando me lembrei perguntar a uma transeunte vinda daquelas bandas o que se passara ao certo. E ela, muito desconsolada, desiludidamente, apenas soube balbuciar – é um simulacro…

Um “simulacro”! Um treinamento – averiguei – promovido pelo nosso hospital, não vá um dia dar-se por aí um acidente de enormes proporções. A tal catástrofe, assim adiada para não se sabe quando. Isto é: nem gente dizimada na central, nem ferros retorcidos a fumegar na estação dos comboios.

E, em suma, a minha reforma adiada e Famalicão, querendo um cantinho no mapa-mundo, a continuar a marchar, dia e noite, no compasso produz-exporta, produz-exporta, produz-exporta. Bem vistas as coisas, algo mais salutar, mas também mais cansativo do que um simples atentado do Daesh.

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 02.NOV.2017)

 

 

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