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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"O Alentejo aqui ao lado"

João-Afonso Machado, 26.11.15

MONTE DE CORTE LIGEIRO.JPG

Foi no andar de uma conversa qualquer que despontou a novidade de um restaurante alentejano para as bandas das Caldinhas, um pouco adiante. Contada no tom viajado de quem acabara de chegar de Marrocos com o papinho cheio de comidas exóticas. Não é que eu vá ao Alentejo todos os dias, mas enfim… a minha Avó materna era de Borba e muito me aprouve saber da vinda do Alentejo cá acima. O almoço ficou logo planeado para o sábado seguinte.

Coordenadas: Areias, Santo Tirso, virar à direita logo após a igreja paroquial. Se o GPS se engasgar, é perguntar pelo “O Cansêras”. Ou, simplesmente, pelo “restaurante alentejano”.

O pátio da entrada condiz, as cores também, o cenário está montado a preceito. Os escritos todos no dialecto deles. A ementa variada e a sala tranquila como a sombra de um chaparro. No demorar da conversa fui confirmando não se tratar apenas de uma ideia patusca: encontrava-me mesmo, quase na hora da sesta, na embaixada do Alentejo no Minho.

Assim as excelentes migas com supremos de porco, precedidas de queijinho curado de Serpa e regadas em branco da terra da minha Avó, foram ainda acompanhadas por um interminável passeio no mundo transtagano. A medir longitudes por mim alcançadas, quer à caça, quer em simples passeios. Explicando um pouco melhor:

O Chefe Vieira da Silva – o proprietário – provém da região de Beja, trouxe-o o seu casamento com uma senhora de Areias. A brincar, a brincar, vão lá treze anos abriu o estaminé e a gente nada sabendo! A gente… As paredes de “O Cansêras” estão repletas de fotografias encaixilhadas de conhecidos e até alguns amigos. Então e nós?... Um intricado enigma que desisti de perceber…

Mas, dizia eu, aquela quase metade de Portugal não me é de todo estranha. De modo que andámos de ali para acolá como se em curvas derrapadas no mapa. Invocámos os nortes da Amieira e de Niza, a beleza de Castelo de Vide e do Marvão, as minhas raízes no Crato e a capital Portalegre; de Évora, o santuário gastronómico do “Fialho”, a raia de Barrancos, Santo Aleixo da Restauração, o grande lago do Alqueva; as castelanias de Montemor, Monforte, Estremoz, do Redondo; tantas herdades onde andei de espingarda na mão: Vale Manantio, a Mingorra, o Vau, Vale do Gaio; a beleza do Guadiana, o Pulo do Lobo, Serpa numa margem, Mértola na outra; as planuras da Cuba, Ferreira do Alentejo, Beja; … e um silêncio envergonhado sobre o litoral entre Sines e o Cabo de S. Vicente, para mim ignotas paragens.

Salpicos do muito em que os famalicenses deviam meditar. Um naco enorme de Portugal hospitaleiro até mais não, aprimorado na cozinha, conservado na arquitectura, nos costumes, na História. Ou a negação da penosa imagem de umas travessinhas mal ataviadas em Canal Caveira nos idos recuados de peregrinação ao Algarve.

Porque, em suma, “O Cansêras” também é isso: uma espécie de documentário sobre o Alentejo e a sua anatomia. Na certeza de que, ao fim de treze anos de “cansêras”, os alentejanos identicamente gostam destas bandas de cá. «Sem stress» - acrescentaria o Chefe Vieira da Silva!...

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 26.NOV.2015)