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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Moleiros, azeiteiros e sardinheiros"

João-Afonso Machado, 16.11.17

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Podia muito bem ter sido ela a camioneta com que me deparei o outro dia. A cabine verde, a caixa aberta e as duas antenas sobre os guarda-lamas dianteiros, nunca percebi para que serviam, se eram simples adornos ou se tremelicariam antes como para-raios. Mas a camioneta, capot alongado, valia há umas décadas ao moleiro. E o moleiro valia-se do moinho dos meus Avós. É por isso, a mercadoria consistia em sacos de sarapilheira, embranquecidos da farinha, a mó do moinho movia-a a água do ribeiro, e a quinta contribuía com apreciável quantidade de milho, parte da qual - ignoro os termos exactos do trato - lá ficava, moída, e a outra ia com ele, moleiro.

Lembro a arca em castanho onde a dita farinha se armazenava. Os meus esforços para lhe levantar o tampo, o cheiro tão especial emergente da façanha, qualquer coisa como o aroma do conforto ou da abastança, e as suas muitas divisões dos mais diferentes tamanhos. Era um manancial - de milho-grão, de farinha, de feijão, de aveia... Suponho, parte leva-la-iam os coelhos e galinhas e a semeadura, parte o conduto do pessoal da lavoura. O moleiro chegava, portando às costas a pesada sarapilheira, descarregava, e o resto era com a Maria do Bernardino - a s'Maria - que então presidia aos destinos desse pó branco fielmente guardado da rataria pelos seus acutilantes gatos.

(A s'Maria, pelas minhas contas, andaria então pelos cem anos. Vale dizer, hoje, se fosse viva, nunca contabilizaria menos de quinhentos...)

Escapam-se-me as feições do moleiro. Para sempre ficou apenas a sua boina, negra debaixo de uma brancura farinácea perene, entranhada. E as costas encurvadas ao acartar dos sacos, um cigarrito de enrolar colado no canto da boca. Tão-pouco o nome... - teria ele sido baptizado "Moleiro"? Certo é, do nosso partiria para outros moínhos do ribeiro, para as azenhas do Este ou mesmo do Ave, sempre esbranquiçado, polvilhado, na velha camioneta, destas camionetas simpáticas que cabiam nos caminhos municipais sem enganchar nas ramadas, sempre a fumegar pelo cantinho da sua boca.

Muitos anos volvidos, rumo às minhas pescarias no Louro ou em Nine, juraria ver a sua carcaça - a da camioneta do moleiro - em Lemenhe, no Chouso, apodrecendo na berma larga de uma curva da calçada. Conforme o costume, estação após estação estacionada, depois o furto dos pneus, umas pedras a sustentá-la, e peças sumidas à descarada até ao total desaparecimento das suas formas, numa qualquer golpada nocturna mais afoita. A minha questão mantém-se: seria à sua ressurreição que eu assisti?

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Com o azeiteiro a função era mais sonora. A sua chegada fazia-se anunciar à distância. No tempo da carroça puxada pela mula, pelo toque estridente de uma corneta. Depois pelo claxon insano da sua «frágonete».

(Note-se, o termo "azeiteiro" tinha então, também, uma outra conotação, de natureza homofóbica e, por isso, agora constitucionalmente censurável. Mas naquela era todos ignoravam a cartilha constitucional. Vai daí, "azeiteiro" em condições só o que se apresentasse na forma que segue.)

Era o ai-jesus das caseiras. O seu fornecedor de azeite e da restante mercearia - arroz, massa, óleo, margarina e mesmo açúcar e bolachas. Donde a multidão em seu redor, sobretudo a miudagem, puxando as saias às mães, não fossem elas esquecer as promessas da noite anterior... O azeiteiro, é claro, começava por abrir as portas do seu supermercado ambulante a esses mais reivindicativos manifestantes. Urgia as mães sossegá-los, querendo prosseguir as suas compras com discernimento. Assim umas gulodices se transformavam em verdadeiras conquistas e a vinda do azeiteiro num dia de festa. Também ele, entusiasmado com o sucesso do negócio, partia, contas feitas, em grande algazarra de buzina até à casa seguinte. Isto, obviamente, porque viver no campo significava desconhecer em absoluto a propriedade horizontal.

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Não era menor, a barulheira com o sardinheiro e a sua carrinha de caixa aberta. Com o peixe a nadar nas chuvas de inverno ou embrulhado em gelo, no verão. Mas o cheiro do seu negócio não era atractivo. Nem o cheiro, nem o próprio negócio, aliás. Além da sardinha, por regra, consistia ele na faneca, no carapau e, sobretudo no chicharro. Tudo espinhas, mais as tripas que as mães limpavam rapidamente para dentro de um alguidar, e depois davam aos porcos ou aos gatos. Só que melhor não havia, a não ser a preços fora de posses...

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 16.NOV.2017)