Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Memórias do cárcere" - I

João-Afonso Machado, 22.03.20

CADEIA RELAÇÃO.JPG

Terríveis, estes primeiros dias entre as grades. Demorados, eternos, a arrastar as horas numa dor de grilhetas andantes no empedrado das vias. Deixando bem viva a carne dos homens livres mas injustiçados. Tudo é diferente: e, do menos mau, as esperas nas filas à porta do supermarket, por um pouco de alimento. É obrigatório, cozinhar na cela, essa uma ciência de quase ninguém. Pessoalmente, rejeito, em absoluto, o cheiro a fritos, a inglória tarefa de lavar depois a panóplia instrumental da cozinha. Assim me foi distribuída, misericordiosamente, uma refeição ultra-congelada de arroz de pato.

O tal microondas fez o resto. Imperfeitamente, acrescente-se. O alimento veio à mesa (de frio mármore, antes o conventual granito...) como numa manhã de inverno, cheínho de bocados de gelo, foi necessário - Carcereiro, quer uma rebelião já, sanguinária, arrasadora? - foi necessário, dizia,  mandar o prato para trás até ele, enfim, regressar mastigável.

Entrementes, pouco sabemos do que vai lá fora. Consta, El-Rei está bem, e com Ele, a Família Real. Assim sendo, a Nação não perecerá ainda...

No mais, serviram vinho e, depois, maçã reineta. Para já, pese embora o tormento, a fome suporta-se. Lá vamos sobrevivendo.

Mas, ficou-me a ideia, estou para saber se comi arroz de pato ou arroz desse outro aquático açoreano, o atum.

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.