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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Memórias do caminho-de-ferro"

João-Afonso Machado, 24.01.19

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Saiu agora a notícia do fenomenal terminal ferroviário na nossa Lousado, o maior no mundo português, justa homenagem ao labor empresarial que se concentra em Famalicão. É uma honra! Um sinal evidente de progresso, uma valia merecida e irrecusável. Lousado, decerto, mudará de cara, como as senhoras-bem das revistas, mas tais sequelas não assustam. Começando as imprescindíveis obras, há que ir ao local, fotografar, registar diferenças, evitar o Passado fique sem imagem.

Isto dito, impõe-se volvamos à arqueologia, à proto-história dos meandros da circulação ferroviária aqui nestas bandas. Despidos de documentação, calçados apenas na memória. Como se, por exemplo, estivéssemos no terreiro da Casa do Vinhal, cercada por uma linha férrea acima e outra por baixo.

Esta última permanece activa. Foi electrificada e nela circulam comboios às vezes oriundos da Capital, depois Nine é um ponto nevrálgico onde tudo se define – ou para norte, até à Galiza, ou seguindo o ramal de Braga.

A linha de cima foi, há muito, desactivada. Era o ramal da Póvoa de Varzim. Hoje uma pista velocipédica de duvidosa utilidade, e já com uns trágicos episódios de selvajaria no seu palmarés.

Vão lá quarenta anos, a vida era outra: a estação famalicense tinha «retretes» e canteiros floridos; tinha muitas linhas que se esbatiam no cascalho a bordeja-las; tinha um chefe, fardado, de kepi e um assobio, a bandeira enrolada nas mãos. Tinha vagar.

Nada de electricidades. As automotoras circulavam de vez em quando, a espera era a nota dominante, o Gabriel amava a Manela e os bancos da gare aproximavam tão sublime sentimento… As automotoras!  Vindas do setentrião ou surgindo na curva próxima do meridião, vermelhas listadas de branco, ronceiras, engoliam levas de estudantes e quejandos. Percorriam as linhas principais, assim como os infinitos comboios de mercadorias, rebocados por uma locomotiva diesel cor de laranja, toda a força da vida com dezenas e dezenas de vagões carregados à trela. E, nas linhas mais afastadas, outras composições movidas por centenárias máquinas a carvão. O seu destino – a Póvoa, quase duas horas de viagem e um banho obrigatório à chegada, para lavar cabeças comidas de fuligem.

Mesmo para a criançada, na EN206, a caminho do litoral, o programa significava uma alegria maior. Apanhando a passagem-de-nível de Brufe fechada, dificilmente tal não se repetiria em Outiz, Cavalões, nas Fontaínhas. Eram os Anos 60/70 do século transacto, os comboios ainda um acontecimento festivo, e o Pai desesperado, estrada fora, tentando chegar antes de o guarda-linha baixar as cancelas… (Depois das Fontaínhas, a ferrovia internava-se no concelho poveiro e dela não mais se sabia.)

Como é óbvio, tudo mudou. Guardou-se, justamente, o Museu Ferroviário de Lousado e a sua secção de Nine. Vão corridos uns tempos largos, descobri num alfarrabista uma numerosa colecção de postais da época, imagens de Famalicão, da Trofa, da ponte de Caniços, de outros lugares icónicos. Preciosidades em que locomotivas resfolegavam, carruagens desfilavam nos carris para onde quer que fossem. Ao longo de recordações subitamente vivas, quase com pernas de rapazote – nesta altura em que o conforto é tão bom, mas os telemóveis preenchem com mensagens e jogos as viagens, enquanto a automotora batia tachos, gingava toda, tinha assentos de pau e napa… mas era conversadora, coloquial, conhecia toda a gente.

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 24.JAN.2019)