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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Máquinas Antigas"

João-Afonso Machado, 25.09.14

 

Imaginem os mais novos a Rua Adriano Pinto Basto com dois sentidos de trânsito, o estacionamento permitido em ambos os lados, os automóveis movimentando-se vagarosamente, fluidamente, e espaço sempre, mais aqui, mais além, para parar, encostar como é devido e registar um totobola na Casa Voga…

Era assim, vão lá umas quatro décadas! Quando a Estrada Nacional Porto-Braga ainda percorria aquela artéria!                                     

Depois, de um modo galopante, tudo se modificou. Restou apenas esta memória de tranquilidade e das mais usuais viaturas da época. Os Carocha, Fiat  600, 2 CV, os Taunus, Cortina, Peugeot 404… Esses que agora já tem honras de classicismo e vão aparecendo em exposições ou nos desfiles de automóveis antigos.

Encontrei-os, muitos, em visita recente ao Museu do Automóvel, em Ribeirão. Percorrer os arruamentos desvitalizados do Lago Discount não é uma aventura particularmente entusiasmante. Uma coisa é a quietude das terras, outra a fantasmagoria das portas mudas e das janelas cegas. E só do lado de lá das paredes de um desses imensos armazéns parecendo dormir a Eternidade, recuperámos as necessárias cores da vida. Quando uma panóplia inteira de obras de arte surgiu, cheia de peripécias estradais, ante nós.

E outra surpresa também: o Amadeu Melo, o insigne director do Museu, foi colega na primária e no liceu e é um reencontro após quase uma vida toda. O funcionamento da instituição ficou logo devidamente explicado: ali repousam automóveis e motas pertencentes a clubes e a particulares – a coleccionistas, portanto - que os levam e trazem, ou substituem por outros, assim lhes apeteça. A fila de espera para mais internamentos é grande, exíguo o espaço para os acamar. Porém, graças a esta rotatividade, as novidades sucedem-se e a “casa” ganha outra dinâmica.

Enfim, a história desse dia começou (por ordem cronológica) em dois Ford T, um Dodge, alguns Citroen, outros Austin Seven. E por aí fora nas estradas da memória. É claro, a gente não abdica já do conforto da actualidade, não vamos lá sem ar condicionado e alta fidelidade, nem o computador de bordo ou o GPS. Somente os carros de agora são mais feios, menos burilados. Todos iguais. E as motas também.

Resta o outro lado das boas (ou más…) recordações que são as nossas, as que guardamos connosco e pertencem aos primórdios da contemporaneidade de cada um. Aí pontificam os carros em que éramos levados à escola ou viajávamos para férias – e, se não nós, o vizinho rico, o tio bem sucedido. Máquinas que integraram o nosso quotidiano e ressurgem agora no Museu de Ribeirão, num sorriso saudosista de jantes de lata, pára-choques cromados, volantes de massa, painéis minimalistas, inumeráveis botõezinhos e chapa, muita chapa. Como se, neste instante, o Kadet branco da Avó arrancasse pacatamente (depois de uma arranhada marcha-atrás), a Casa Voga a findar-se na rua e, no meu consolado bolso infantil, a absoluta convicção do grande prémio Totobola singularmente ganho já no próximo domingo…

Era assim, pensamos, como se acordando de uma longa letargia. Com todas as histórias da vida – porque sem histórias não há vida – fazendo ponto de embraiagem diante dos nossos olhos.

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 25.SET.2014)