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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Lembrando prognósticos antes do jogo

João-Afonso Machado, 09.05.20

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A falar verdade, já não sei onde está o grande barómetro do Pai, esse em que, mesmo antes da electricidade e da televisão, se deliciava, ou desanuviava o espírito, à conta das eternas vicissitudes da lavoura. - A pressão está a descer, isto vai mudar, - calculava o Pai, com aproximações até uma semana, normalmente bem sucedidas.

Eu não procuro o barómetro do Pai, do mesmo modo que há lugares onde me custa entrar, ou sons que prefiro não ouvir. De resto, sei ler um termómetro ºC e viv'ó velho...

Mais pronto e mais verificável era o prognóstico da Avó, assim soasse o longo apito da automotora: - Amanhã chove! - proclamava com a certeza que tinha em Deus e em todos os anjos do Céu.

Ventava do sul, do lado do apeadeiro, a uns dois quilómetros de nós... O barrir dos comboios, o matraqueio dos carris, enchiam a noite escura, juntamente com o alarido dos cães. Do postigo da casa-de-banho, viamos-los ao longe - tão ao longe como as férias, os amigos, o Bonanza ou o Chaparral... - furando o breu como um pirilampo e a sua numerosíssima família. Sempre convictos, entre aquelas janelinhas iluminadas, a essa hora, ninguém viajaria. Só de pijama, talvez, já a lavar os dentes para se enfiarem na cama, em Nine, Braga ou Valença.

Ainda ontem lá passei no apeadeiro. Seria impossivel, à Avó, prognosticar o seu estado actual. Sem passagem-de-nível, sem a venda da Laura, que morreu centenária. Com a graça das coisas desmantelada como o mais pífio «material circulante». Sem vivalma: apenas com uns letreiros electrónicos e, muito fanhosa, uma voz que repete avisos e informações. Qual quê?!, os colarinhos coçados, a gravata sebenta, nas bilheteiras de antigamente! E as «composições» não andam, - deslizam. Às vezes nem param, numa esquiagem sibilina até Lisboa. Fatalmente a abarrotar de gente. Entre taludes de plástico decerto para prevenção dos ataques dos índios ao cavalo de ferro.

No tempo dos cowboys havia sempre lugar sentado para sonhar o sonho todo ou ler o jornal inteiro. As «motoras», equipadas «à Braga», iam para norte, voltavam para sul, sujas (mas não grafitadas), tresandando a tabaco, elas mesmo fumegando pela chaminé. No entanto, não consigo diagnosticar, apesar de tudo, como que se chama esta saudade desse viver.

 

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