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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Julho lá vai"

João-Afonso Machado, 04.08.16

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À sombra do Parque de Sinçães, não longe da Rotunda do Bernardino, espreito os calores estivais que vão passando e já chegaram a Agosto. O meu amigo Aires Mesquita avia o seu negócio de melões, nesta altura uma sumarenta solução para tão arrastadas horas de aperto solar, e não lhe falta quem os encomende e leve. E interrompa, também, o fluir da memória sob as defesas do arvoredo. De quando ali, onde está o lago, a Biblioteca, seria o quê? Nem todos tinham a praia, os areais da Póvoa ou Vila do Conde, como horizonte de veraneio. Era então necessário improvisar.

Pelas aldeias Julho parecia especar nos relógios. Mais depressa crescia o milho e inundava os campos de verde e de regas diárias que, na falta de melhores soluções, também serviam para um chuveirinho de fim de tarde. Enfrentando a força dos jactos, fugindo deles, criando genialmente um ruido a correr entre o milho e em contraste com o rotinado resmungar dos motores que puxavam as águas dos ribeiros ou das poças.

Temerosos das fossas abissais do Ave e do Este – aliás longínquas, assim como quem vai para o Pacífico - seriam estes ribeiros e poças as praias e as piscinas da rapaziada. Nas piores condições para aprender a nadar, sobravam as “fúrias”, quero dizer umas correrias que acabavam na parte mais aquosa e larga do represado curso, afanado pela seca, onde eram menores as possibilidades de enfiar a cabeça no lodo ou contra alguma pedra.

As poças valiam outra história. Significavam muitas vezes incursões em alheios territórios vizinhos, com todos os perigos inerentes, um rápido despir, a miragem de uma bomba humana lançada sobre aquelas águas já de alguma profundidade… E depois a gelada sensação de repulsa ao pôr um pé nelas, sempre caindo da bica, cortantemente frias, a exigir um imediato agasalho sobre as cuecas dos mergulhadores. Havia muitas culpas de tão deprimentes temperaturas na tardia aprendizagem da natação.

O Julho na lavoura passava devagar, só esporadicamente acelerado pela descoberta de uma cobra, um sardão, um vago momento de combate como o do S. Jorge contra o dragão. E esperava em ansiedade os cachos de uvas já bem pintados de Setembro.

Talvez na Vila, ainda que recorrendo a outros expedientes, o panorama não fosse mais animado. O comércio não fazia férias, ao contrário das escolas, e a miudagem ficava por ali… – entreolhamo-nos perguntando por onde.

Bicicletava-se muito nesses idos. O jardim da Câmara seria decerto excessivamente solene para tais deambulações. As ruas e os passeios ofereciam  riscos e óbvios inconvenientes policiais. Por que raio de impressão a arte do pedal se me foge dos canteiros e laguinhos do parque maior, defronte à Escola Comercial?

Creio seria a Praça 9 de Abril o local mais palpitante dos verões residentes em Famalicão. A coberto da Matriz, na ponta da Rua Santo António, aparando o balanço de quem descia a Rua Direita e de quem mais viesse da Avenida ou da Barão Trovisqueira. Rapazes e raparigas, conversinhas sobre namoricos, piruetas numa roda só (os célebres “cavalinhos”) e os debates sobre o pouco alegre alvinegro televisivo. É muito difícil explicar a Famalicão da nossa meninice à luz dos hábitos actuais. Nisso, eu, o Aires e os leitores estaremos todos de acordo.

Com Agosto o estio amadurecia, amarelecia, apetece vê-lo mais silencioso, ausente de pessoas, a sonolenta Famalicão parecia acordar apenas às quartas-feiras ou com as garridas cores dos automóveis dos emigrantes. A quase totalidade das famílias planeava e executava, então, as excursões possíveis à praia. As férias grandes sem dúvida rendiam!

Hoje quase nada é assim. Surgiram o Algarve, o Sul de Espanha, a Galiza… E a temível crise, fazendo-nos regredir a tempos mais caseiros. Mas os melões do Aires Mesquita mantém o seu momento alto, que é agora. E o Litoral está sobrelotado, as estradas das idas e dos regressos também; as temperaturas-ambiente anormais, os dias de conversa muito repousantes… A altura de partir será lá mais para diante.

Entretanto – a todos, muito boas férias!

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 04.AGO.2016)