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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

História fronteiriça

João-Afonso Machado, 27.08.16

ESTAÇÃO.JPG

No fundo, o que o desesperou foi o azar de uma herança no meio do deserto. O grotesco dessa herança a dar-se ares apalaçados, cercada de palha e calhaus. Não conseguiria melhor o tio que atravessara o oceano, e regressara entre o saudoso e o perdulário?

E sequer podia desculpar-se com a ruína. Não, as paredes permaneciam hirtas, o telhado um chapéu perfeitamente a uso e as janelas como binóculos - antiquados, talvez, mas providos ainda de todas as lentes. Sem esquecer a chaminé que uma cegonha ocupara, agora o seu ninho, solitário, inamovível, isento de impostos.

- Herdei um elefante cor-de-rosa! - disse, embriagado de fastio.

Onde estivesse, o tio ouviu-o desagradado. Tinham sido semanas e semanas de mar encabritado, o alfa e o omega de uma vida inteira de agruras, até ao epílogo da ausência de porta aberta para o comboio. Na rota das frescas margens ribeirinhas e dos prazeres mundanos do litoral ou da cidade, da fronteira... Sempre em idas e voltas estonteantemente rápidas.

- Mal-agradecido sobrinho! - desabafou, triste, indignado.

SEM PONTEIROS.JPGChegou depois o dia em que o pessoal da ferrovia abandonou o apeadeiro. E logo ele resolveu regressar a sua casa. Chamam-lhe hoje assombrada mas é apenas porque o comboio se transformou na calmia do seu desasossegado espírito, em horário diluido, intemporal, de onde, caducos, cairam os ponteiros do relógio da gare.

 

 

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