Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Fardado no Alentejo

João-Afonso Machado, 15.07.19

IMG_1338.JPG

Abaixo dos 30º não está. E nem pensar em mangas da camisa arregaçadas, tudo permanecerá no devido lugar, o colarinho, a gravata, o fato. Assim aprendemos o que já não somos capazes de esquecer. Não obstante, corri a aldeia, festejaram-me as velhotas locais, escondidas numa sombra do Centro de Acolhimento. Faltam dez minutos para o relógio cronometrar o atraso dos noivos. Depois melhor se avaliará a resistência humana.

Estranhos caminhos os que levam a um casamento no Alentejo. Mesmo o celebrante é do Norte, muito de arenga alta no púlpito. Em Longomel, - terá sido pela doçura do topónimo? A igreja é pequena, os lugares vão-se enchendo. Num ápice, a lapiseira encolhe-se e estaca a observar.

O interior é todo simplicidade, o coro faz as suas afinações terminais. Um casamento não é para qualquer um, isso a vida vai-nos ensinando. Neste momento, em Longomel, os passos caminham firmes, desprovidos de hesitações. A noiva entra pelo braço do pai, trazendo consigo a maior expressão de felicidade. E a cerimónia é curta e bem disposta. O padre, inteligentemente, abreviou muito o sermão, não se alheou dos efeitos do calor nos espíritos.

E depois das pétalas de flores na saída, as apresentações. Conheço quase ninguém - João Afonso, muito prazer... - É primo do Zeca Afonso? - Respondo ao inquiridor apenas com um sorriso a meio pano. Mas a pergunta é repetida mais além. Bolas! Já não se pode ser Afonso em paz.

O bródio é logo ao lado, onde alguma aragem e o queijo, as chamuças, a morcela e muitas garrafas de rosé fresquinho abrandam as chamas que me vão dentro. A indumentária mantém a sua compostura. E gente acolhedora, proprietária de boa conversa, surge de todas as bandas. Está-se no momento em que se está - indiferente ao antes, sem pressa quanto ao depois. Perfeitamente alentejanado, deste modo os olhos fogem-me atrás dos vultos, dos costumes, dos dizeres. E eles sem outra referência senão a do «João Afonso», hirtos nas suas suspeitas, num pretérito condicionante, confiantemente condicionado, generosamente hipotético - eu seria, ou não, primo do «Zeca»?...

Chegaram a música e a dança. De tão alentejanado deixei-me ficar à espreita do disco-sound. Bem vistas as coisas, tem muito mais graça vê-las exibir a sua arte, o seu ritmo, a sua agilidade. E por longos momentos, no recinto, houve apenas juventude e prémios, imensos prémios, mentalmente atribuídos por um juri sagaz - eu próprio...

O livro de orações e a lapiseira de novo saíram, outra vez voltaram ao meu bolso. E a noite continuou, alentejanadamente, mesmo chegando a hora da despedida e o quarto numa pensão do mais requintado silêncio alentejano.

 

2 comentários

Comentar post