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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Eu, carteiro

João-Afonso Machado, 17.11.18

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No fundo, descobri agora, a minha vocação sempre foi a de carteiro. A entregar cartas, de morada em morada, antigamente fardado de cinzento... Hoje não: um calção de lycra e uma t-shirt com dizeres nas costas - CTT-Famalicão. Tudo a valer o bónus da eficácia, a incorporação na equipa (CTT-Famalicão) que, aos domingos, participa nas provas BTT, com direito a folgar, em caso de sucesso, às segundas-feiras seguintes. E o boné, com a pala para trás.

Como quer que seja, o meu quotidiano assim seria: uma bicicleta, com algumas dezenas de mudanças, e a velha sacola, no cabedal de outrora, cheia de cartas, mais a mochila às costas. Conforme os meus antecessores, aí ia eu, pelos caminhos rurais, de quintarola em quintarola. Em cada uma, a paragem, as mãos em concha de volta da boca, o grito a  plenos pulmões:

- Correio!!!

Ladram os cães, cacarejam as galinhas, apavoradas. Na mudez da casa, com a minha insistência

- Correio!!!

já os melros tinham fugido para distâncias inalcançáveis. No continuar do silêncio das gentes, eu tirava da mochila a velha corneta amarelada de cobre e buzinava

- Bééééé...

até que, finalmente, uma voz de dentro exclamava

- Vai já!!!

e sobrevinha o meu descanso. Entregava a correspondência, solicitava a assinatura dos devidos registos (nesses anos modernos, pela cabeça das pessoas nem passava a ideia de ir à repartição levantar cartas...) e os domiciliários punham no meu profissionalismo os seus portes. Fosse, ou não, sob registo, eu voltava à mochila, rapava do frasco de cola e, com o pincel, em qualquer parapeito, afixava o sêlo (lindo, figurando colecções de animais ou de fardas militares, como os das antigas Colónias ultramarinas). Cobrava-me, após os papeis preenchidos. E seguia à minha vida.

Seguia, caminho fora (conhecia de cor todas as senhoras a quem repugnava o meu cheiro a suor), e, com tantas mudanças do velocípede, até trepava paredes. Somava quilómetros, atravessava edifícios cegos - moradas de antigamente, ora em ruínas, ora com cartazes de "à venda". Então benzia-me e invocava os antigos proprietários, gente da minha memória. A existência é uma peregrinação. O Céu é o destino. O Purgatório, hoje em dia, a espera nos postos CTT. 

Coisa rara, desaprendi andar de bicicleta entretanto...

 

 

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