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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"EN2"

João-Afonso Machado, 10.06.20

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Ouvi nas caminhetas – Mas, afinal, o que é isso da Estrada Nacional 2? - E embatuquei. Fui estudar.

Conheci lições mais difíceis. Aprendi, e fiz um plano para a primeira oportunidade, que chegou agora. Estou de saída.

Ao tempo em que lerem estas linhas – a imprecisão resulta dos feriados próximos – se não houver novidade, andarei entre a Beira Baixa e o Alto Alentejo. Será quase uma semana de passeio, as minhas férias no exterior do Interior, e o decalque de rotas já conhecidas, há muito não transpostas, de mistura com umas tantas novidades. Falo, mais precisamente, da dita travessia da EN2, de Chaves a Faro.

Segundo me informei, a mais longa estrada europeia, e a terceira mundial. Para todos os efeitos, a versão portuguesa da famosa Route 66, que vai da ponta Leste à Oeste dos EUA. Atravessando quatro fusos horários, creio. Aqui, a gente é menos exuberante e, de resto, viaja de norte para sul – somos um país de simplesmente humanos… A obra tem a assinatura do Eng. Duarte Pacheco, ministro da II República.

A EN2 percorre, com bastante precisão, a espinha central do mapa nacional. Na problemática sanitária dos nossos dias, segue o percurso mais inocente, mais alheado da epidemia. É hoje uma rota corriqueira de peregrinação, – não religiosa – mesmo a pé, e já valeu, a quem a fez, alguns prémios literários. Deixo aqui a menção, bastante de cor, de alguns pontos do percurso. Em Chaves, descobre-se o célebre marco rodoviário que é o sinal de partida – está lá escrito: «Km 0»; e a referência a Faro, outros quase 800 para baixo. Assim, ouvindo-se dado o tiro do arranque, com passagem pelo Vidago, Santa Marta de Penaguião, Vila Real, Régua (prometi à minha “pendura” um desvio por S. Leonardo da Galafura, um dos mais exuberantes miradouros portugueses, sobre o Douro), Castro Daire, S. Pedro do Sul, Viseu, Penacova, Coimbra, Góis… A Beira vai em metade… Depois, Vila do Rei, Oleiros, a Sertã, Abrantes, a travessia do Tejo, a Ponte do Sor, o Alentejo imenso, S. Brás de Alportel, já nas serranias algarvias, e finalmente Faro.

Evidentemente, espero trazer ampla documentação e vasta fotografia de um Portugal que não é imenso (vem-me à ideia o meu filho mais velho, um aventureiro, e a sua travessia da Sibéria à boleia…) mas diversíssimo de região para região. Porque elas são muitas, envolvendo a paisagem, o clima, as gentes, os costumes. Resulta disto tudo a derivação para Castelo de Vide, Marvão e Portalegre, lugares de já tão distante memória.

Mais a mais, todos sabemos o que o Tempo é capaz, o que nos espera pela frente. Prenunciadamente, diferenças que desorientam, espasmos no GPS. Por tudo, o resultado de uma “prova” inconstante e difícil. Mas, creio, valerá a pena. Portugal é as vinhas do Douro, as serranias da Beira, o planalto, a solidão da Beira Baixa e do Alentejo. É um coração, um corpo de todos nós. É gente pobre, idosa, perdida entre as montanhas. Se dissesse ia conhecer o desconhecido, mentiria. Vou antes revivê-lo, voltar a sentir o distante de umas dezenas de quilómetros da azáfama litoral. E se trouxer provas dessa crua dualidade, duas em duas – o meu testemunho de povos tão perto, mas afinal tão distantes e diferentes; e o meu incentivo a que os famalicenses, em alternativa ao mar, vão conhecer os rios. Onde eles nascem e crescem e os nossos precisam de nós.

 

(Da rúbrica Ouvi nas caminhetas in Opinião Pública de 10.JUN.2020)

 

 

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