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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

A falar sozinha

João-Afonso Machado, 19.01.18

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Ainda há pouco um estranho me espreitava da ponte, os olhos pregados na vassoura sacudida para o rio. Ora! Esta gente parece desconhecer a força das águas e a merda toda que vem da cidade e se apega aos fundos e às ramagens. Vivo aqui, aqui nasci, era o meu falecido Pai moleiro e o mais famoso pescador de trutas. Quando as havia, que elas hoje são lendas... Pescava-as o ano inteiro, tanto fazia fosse com a minhoca, indo a corrente mais puxada, fosse com o grilo, no Verão. É verdade, um dia acendeu uma bomba, lá para Gondifelos, trouxe a saca cheia para quase duas semanas, no vinagre e com sal é e elas ficam boas, o frigorífico nem nas ideias do meu Pai andava ainda. A Guarda veio rio acima, parou por cá, eles sabiam fora o falecido, mas fizeram de conta. O susto bastara. Quando a água virou lodo, cinzento de tanta porcaria, o Pai foi-se de um mal que o levou num instante. Tinha acabado o tempo que lhe compensava os dias. E eu fiquei, a trabalhar à jorna, até esta reforma de miséria e o soalho a gingar. 

Nada espero mais. Tratem os meus sobrinhos do resto, cuidem da casa, a bem dizer nada sei das artes do meu falecido Pai para que as águas não nos chegassem aos quartos, em marés de tempestade e cheias. Oh Mãe Santa, daquela vez que o pipo que ele comprou lá para riba boiava na loja e os sacos de sarapilheira andavam no fundo, ensopados! Aquilo foi cuspir-lhe na sopa, jurou abandonar as moendas. Essas tais, agora paradas, e afora algum eirogo, também o peixe veio `vindo à tona de papo para o ar... Hoje...

Fosse eu mais nova uns trinta anos e não diria - leve-me o Senhor para terra limpa, onde não me pese na alma o mau cheiro do rio. Quem me há de ficar com este inferno deste jeito?