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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

De eléctrico até à Praia das Maçãs

João-Afonso Machado, 27.08.20

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Em Sintra pingava grosso e foi necessário buscar abrigo enquanto o eléctrico não chegou. Finalmente, aquela ronceira trepidação, a sua imobilidade e a jovem turista, agilissima, de um salto lá dentro. Em calções muito pela virilha, impedindo-me de, no tempo, dar a mão, uma ajuda elegante, à donzela que alçaria um pouco a saia do vestido e se firmaria no corrimão para subir os degraus. Porque a sombrinha, o chapéu com uma fita pelo pescoço, tudo atrapalharia.

E o tornozelo à vista, feito o câmbio, as longas e apelativas pernas desta provável britânica. O demónio, tal desnecessidade de ajuda, uma emancipação sem suspiros ou fragilidades!

De modo que nem corpetes, nem decotes, nem as carnações ebúrneas de antigamente. Apenas uma t-shirt e o umbigo de fora, um corpo ávido de sol, tudo tão perto e tão distante...

Ainda assim o tempo recuou na viagem até à Praia das Maçãs. À força, de atracão, impondo-lhe o laçarote do chapeuzinho de palha sob o queixo e vestindo-a com um olhar encantadoramente pestanudo. Um vestido leve de veraneio,  sempre em troca e destroca com as hot pants e a ausência de corpetes e espartilhos. Numa alternância de romantismo e gulodice, Galamares, Colares fora.

O eléctrico, realmente muito trôpego. Houve um breve momento Cisco e a visão das faíscas da máquina sem travões, para baixo é sempre a descer, o guarda-freio agarrando desesperadamente o comando, tentando evitar a tragédia. Sim, esse foi o instante do retorno ao vestidinho de chita, à sombrinha, a um imenso delíquio da apavorada miss, tornáramos finalmente à era dos galãs. Todos ao poleiro, a ver quem é mais galo!

A imersão do eléctrico em matas de pinheiros e depois a rasar casas e sebes, desviou a atenção para outras futilidades, e a despachada turista de esbeltas pernas e tanta auto-suficiência regressou.

Talvez ainda haja avistado a sua versão romântica, ao ser apanhado em flagrante de olhos nela. Linda, linda. E enrubescendo, baixando a cara. O chapeuzinho a cair, a cair, já no chão, esse o momento crucial - Can I help you? - e por aí fora, a Praia das Maçãs à vista, o termo da viagem, uma ajuda naqueles temíveis degraus, outra no labirinto das ruas.

Talvez o lunch, até... A imaginação não paga bilhete, viaja de borla, sempre sorrateira. Mas no destino, aquelas pernas que fugiam dos calções, em formas esguias e velozes, sumiram. É que as minhas, coitadas, já nem conseguiam acompanhar a sua pedalada. Poor old man!

 

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