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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

De comboio, da Régua ao Pocinho

João-Afonso Machado, 14.09.20

Um passeio absolutamente ao alcance, e tantos anos de desprezo... A Régua, em Setembro, no auge do cosmopolitismo, a pedir meças às cidades maiores. Uma vida cara, lá para as bandas, e um impressionante vaivém de gentes. A estação ferroviária, de súbito cheia de idiomas díspares, impaciente porque o comboio, bem à portuguesa, vinha atrasado. Íamos subir o Douro até onde pudesse ser.

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Não tardou a primeira barragem. Bagaúste. O rio hoje é isto: ora um lago, ora um fio de água onde por milagre os barcos-hoteis vão furando sem naufragar. E nós sempre pela margem, de olho esbugalhado ante paisagens imensas, para já povoadas, o mundo das quintas vinhateiras.

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São montes que se despenham das alturas, em socalcos agora trabalhados por máquinas, já sem os muretes de pedra e as escadinhas, vinhas modernas, decerto mais rentáveis.

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Adiante, não muito, o Pinhão. O coração do Douro, se a Régua é a sua capital administrativa. A vida dos povos da Região contada toda nos mais ilustrados e hábeis azulejos da estação. O comboio enche - assustadoramente - de passageiros. Está ali o mundo inteiro e, cada vez menos, a minha mobilidade para fotografar, conquanto a automotora se desloque com todas as janelas abertas. À moda antiga...

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A próxima assinalável paragem é no Tua. Vale dizer, junto à confluência deste rio com o Douro. Nova - e mui caudalosa - invasão de utentes... Pelo meio, antigas peças da ferrovia, um misto de exposição e apodrecimento, mas porquê?, não me ocorrem outras linhas em que tanto seja este descarado desperdício.

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Depois o Douro parece emagrecer apertado entre paredes de granito. Por tempo bastante - as vinhas somem-se, e levanta a voz um panorama calado de pedra, carrasqueiras e codeçais e estevas.

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Lugares de Adamastores fluviais onde duvido alguém tenha chegado. Ou sobrevivido... Mortes vindas do céu para as águas, ignotas e esquecidas.

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(Ladeando o drama, a automotora prossegue a sua marcha. Velozmente. E nós no mesmo ritmo, porque o Alto Douro não cabe todo aqui...)

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Mas há o tornar ao vinho. Já em terras de muito poucos conhecedores. Passamos a célebre quinta do Vesúvio da celebérrima Ferreirinha (D. Antónia Ferreira). Para trás ficaram os tremendos cachões e o fantasma de Forrester. Neste Douro mais selvagem, mandam muito, actualmente, - os britânicos do Oporto Wine.

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Afora eles, estranhos gostos se penduram nas margens ingratas do rio. Perco-me a pensar como e de quê - ou quanto... - se aguentarão naqueles galhos de vida.

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Enfim, o Pocinho. Daí para a frente, é o nada ferroviário, salvo a saudade de comboios da minha juventude, ainda a vapor, a linha do Sabor, os machos que montávamos e vinham carreiro abaixo, só por milagre não se - e nos - esborrachando debaixo das locomotivas. É Fozcoa e a proximidade de Espanha. Não é - um boteco sequer para nos dessedentarmos em dias assim, abafados, tragados pelas serranias, a pedir encarecidamente cerveja fresca, uma fatia de qualquer coisa, bons anfitreões... Uma lacuna triste no Douro Vinhateiro - Património da Humanidade!...

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Já no regresso, entardecia mais depressa que o andar do comboio. O cansaço instalara-se nas carruagens. Mas houve sempre um lugar no pódio para a Quinta das Carvalhas, no Pinhão, a cabeça da Real Companhia Velha.

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Conhecia-a, há mais de três décadas, no meu baptismo às perdizes no Douro. Trazido e recebido por gente para sempre no meu coração!

 

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