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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Ceuta, oito anos depois

João-Afonso Machado, 21.04.20

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A leitura recente de Afonso Lopes Vieira (Onde a terra se acaba e o mar começa), a páginas tantas (Quatro cantares), alvoroçou-me a memória: «No altar da catedral/Nossa Senhora de África cismava/ vestida à sevilhana - e suspirava/por Portugal.»

Em Ceuta, o dote de uma infanta portuguesa no seu casamento com um rei espanhol.

Lá fomos, um lusitaníssimo grupo viajando de camioneta de Lisboa a Algeciras, indo por Évora, pelo Algarve... A levar-nos aos limites do cansaço, a epopeia! Embora com os mais picarescos episódios pelo meio: os auto-flagelados penitentes, deitados no corredor do autocarro de barriga para baixo; a freira brasileira que não o era (descobri eu) porque freira não usa saia a realçar os contornos da bunda, freia esconde-se dentro de ampla veste - e esta, para mais, invectivava à oração do terço a clamar por «Jesú!», «Jesú!», como se estivéssemos no antigo cinema Império; e o desespero do motorista, quase a enlouquecer perante tão repetidas infracções das normas de viagem.

A emoção da travessia do Estreito! África! A curiosidade suscitada por qualquer cantinho deste tímido início do continente...

O brasão de Ceuta, igual ao de Lisboa, com as armas e a coroa reais portuguesas sobre o todo! Onde quer que houvesse um pretexto para estarem lá.

Connosco seguia uma imagem, esculpida em madeira, de S. Nuno de Santa Maria, a ser ofertada à primeira das praças que conquistámos para lá da Europa. E ainda então, no altar-mor da sua Igreja, permanecia Nossa Senhora de África, destemida designação e olhar de fé postos no sul tórrido e desconhecido. «Vestida à sevilhana a suspirar por Portugal», claramente. Momentos que ficam para sempre...

Como, infelizmente, o da bandeira rubro-verde no andor do nosso préstito! Vi, e fui reclamar com o sacerdote português, monárquico de gema. - É preciso ter paciência e diplomacia, Pindela... - aplacava ele. Não era! E eu guinei para a minha vida, eu e o meu mundo sozinhos em Ceuta, a cheira-la, a senti-la, ainda vivo o brasão com as armas e a coroa do meu Reino.