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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Carta de longe"

João-Afonso Machado, 14.12.17

CÃES NA RUA.JPG

Escrevo de Boticas. Para os mais esquecidos, ou desconhecedores da geografia, estou nas cercanias de Chaves, das águas de Carvalhelhos, da geada que só desperta lá para o meio-dia, numa vilória encaixada nas encostas da serra. Neste início de noite o frio quase paralisa mas não falta o calor das iluminações natalícias; as ruas parecem estátuas – quedas, caladas, sem movimento de gente. Mas, para além desta apresentação, quase ao toque de finados, Boticas lembra-me Famalicão. Pelo menos aquela Famalicão em que eu, vindo nem sei de onde, rabiscaria estas linhas quanto os dedos gélidos mo consentissem num quarto do Garantia. Que extraordinária intersecção de recordações!

Volto ao tempo em que o Garantia, todo – ou quase todo – ele era um fausto. À moda do seu tempo, como o de aqui de Boticas, agora, borbulha modernidade. Almocei uma espécie de folhado de alheira, uma truta grelhada e bolo de castanha. Como se em Famalicão me servissem rojões light e um naco sem espinhas do melhor bacalhau, a rematar com um leite-creme coberto de açúcar queimado.

Depois não recolhi à sesta. Pus a máquina fotográfica ao ombro e fiz-me ao caminho. Semelhando há quarenta anos a descer a nossa Rua Direita, o Largo 9 de Abril e prosseguindo por trás da Matriz, através de vielas que parecem escorregar-me das mãos da memória. Mas Boticas sobe e desce ainda mais. O aluguer de bicicletas não terá nestas bandas grande futuro. E é quase tão extensa como uma cidade britânica porque também vive mais em moradias do que na complexidade da propriedade horizontal. Sim, um prédio de dez andares em Boticas exigiria sempre varandas envidraçadas e outros cuidados contra as neves perpétuas. Além disso, é provável, caberia lá a população inteira da vila. Não podia ser. Boticas foi crescendo balcão sobre balcão, muito arrumadinha nas suas vivendas, e deixou bem à vista o seu centro, obviamente a sua parte mais antiga, porém com nada de monumental. Há até muitos edifícios recuperados, e alguns de arquitectura de ponta – a câmara municipal, o tribunal, a biblioteca pública, as escolas, a Misericórdia e, insisto, o hotel.

A Matriz, uma ou outra casa circundante, sempre vão explicando que a terra não nasceu ontem. Nem morreu: assim remato as minhas ideias quando a fantasmagoria do Garantia mas assombra outra vez. Aquilo é uma dentada de Drácula no coração famalicense. Como é possível tanta falta de prevenção, tanta convivência com a ruindade?! Por que esperam os hostels, os restaurantes, as galerias ou casas de espectáculos?!

Prosseguindo a minha deambulação por Boticas, anoto agora, o comércio é quase inexistente. Não que necessitasse, mas procurei um cangalheiro, um barbeiro, uma loja de ferragens, uma pichelaria, um estabelecimento de massagens… Não encontrei. Apenas uns chineses – uma casa apenas! – uns noctívagos resistentes – eles e o presépio do jardim municipal – a cuja porta espreitei e onde vislumbrei um cabide todo de samarras. Samarras chinesas! Afastei-me, danado com o ultraje. E andei atrás de uma sapataria que também não topei.

Como reagiria um botiquense na Rua de Santo António? Enquanto o via atónito, atordoado pelas luzes dos reclamos, ia firmando esta estranha sensação de duas terras afinal tão parecidas. Pelo menos nos idos em que, em cada uma delas, todos conheciam todos e, onde quer que nos posicionássemos, víamos sempre os montes em redor. Nos preguiçosos anos em que o trânsito desentorpecia tarde, era sobretudo pedestre e nos jornais se protestava porque os escapes das juntas de bois sujavam a rua. Quando ainda era possível assistir a um carro deles estacionar entre dois automóveis.

Boticas é uma fuga para trás. Sei quem vinha comigo (vem sempre), de certeza soube-lhe bem o passeio. Talvez mais quando atravessámos o parque público, as represas do rio, e íamos contabilizando os cães à vontade estirados na rua a coçar a pulga (identicamente não descobri veterinário algum…). Mas alimentados, a ladrar ao desafio, contentotes e rufiões.

É difícil plasmar na escrita sentimentos tão voláteis. Gosto da geada de Boticas, da sua pacatez e de uma saudade qualquer que mora lá mas não se dá exactamente a conhecer.

 

(Da rúbrica De Torna Viagem in Cidade Hoje de 14.DEZ.2017)

 

                

 

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