Aqui jaz uma freguesia

O solar ficou para trás sem despertar grandes alertas. A igrejinha podia ser apenas mais uma capela, há-as por todo o lado. Mas o cemitério não. Não há cemitérios por todo o lado. Onde estávamos, afinal? Já não em Outiz, ainda não em Vilarinho das Cambas...
Era Gemunde, o fantasma da freguesia que morreu no meado do século XIX. Depois reduzida a lugar de Outiz. Estavamos ainda em Outiz e o fantasma diante de nós.
Um fantasma que não assombra o solar, demasiadamente vulgar para significar uma freguesia. Nem a antiga igreja paroquial, diminuta, escondida, falha de torre sineira, de adornos, servindo já só a devoção da Senhora da Guia.
O fantasma agita-se de branco sobre o vale desde terras de Famalicão às de Barcelos. Os seus braços foram personagens gradas de Gemunde. E é um silêncio que não se cansa de falar inconformado. Mas uma sobrenaturalidade asseadíssima, de tão estimada pelos vivos, a promessa feita aos mortos, é ali, entre paredes socalcadas na encosta de Gemunde de todos os tempos, nesse eterno bocado, que todos se hão de reencontrar mais cedo ou mais tarde.