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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"António Brandão, um bom Amigo"

João-Afonso Machado, 28.12.17

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A tristíssima notícia apanhou-me completamente de surpresa. Sabia-o adoentado apenas, nunca pensei estivesse perto o fatal desfecho. Eramos amigos há muitos, muitos, anos e já o seu tio, o Padre Rufino Araújo, fora capelão da casa dos meus Avós. Sempre o conheci, ao Sr. António Brandão, ligado ao PPM – e nessa altura já somávamos dois – e à caça e à pesca. O seu estabelecimento, no Barreiro, em Gavião, era o meu poiso para os cartuchos, os anzois, uma cana nova ou um carreto, um par de botas que fosse. Em 1991 comprei-lhe a minha primeira espingarda não herdada. Outras se lhe seguiram. Mais tarde ainda, quando os nossos filhos começaram também a querer dar uns tiros, eu recomendava aos pais, meus amigos, – vão a Gavião, vão à Casa Michel. E o Sr. Brandão lá foi vendendo mais umas espingardas em terceira mão, baratas, para os miúdos verem se gostavam mesmo de atirar e mereciam posterior melhor investimento.

Enfim, foram umas décadas patuscas. O Sr. Brandão, além do mais, era uma inesgotável fonte de informação. Vindo a Primavera, aberta a temporada da pesca, a pergunta todos os anos se repetia – onde Sr. Brandão? Onde uns peixitos? E ele logo dava notícias: no Cávado, ali para Areias de Vilar, no Neiva, mais acima, … no Pelhe, debaixo da ponte tal, para a criançada se recrear com uns escalos grandes…

E na caça o mesmo. Sobretudo quando eu procurava um fornecedor de perdizes ou codornizes para treinar os cães. Ele sabia sempre quem as tinha para vender. E íamos os dois, então, a Guimarães, à Póvoa de Lanhoso, a Barcelos, por umas caixas de aves para o dia seguinte.

Fomos ambos a Monfortinho. (Que saudades desse tempo!) O Sr. Brandão atirava bem e pôs à cinta um molho repolhudo de perdizes. Caçámos ao coelho juntos. E participámos na mais extraordinária largada a que alguma vez levei a minha espingarda. Foi em Julho de 2004, durante uma vaga de calor do verão inteiro. O céu acastanhara definitivamente, pesava-nos na cabeça, nos ombros, nas pernas e nos pés, denso, feio, a esconder o sol. Vilarinho das Cambas ainda não era sobrevoada pela A7. Havia por ali uns campitos, um eucaliptal, e a solta consistia em faisões, patos e perdizes. Deram-se muitos tiros e trouxeram-se muitas peças. Estes cerimoniais têm início e termo sempre à mesa. Em tão abafado ambiente foi depois necessário regressar a casa devagarinho, muito devagarinho…

Mas o Sr. Brandão preocupava-se sobretudo com a questão do equilíbrio do meio natural. Revoltavam-no quantas patifarias se lhe dava assistir em prejuízo dos animais bravios, dos nossos cursos de água. E tinha planos de salvação, planos tarjados de negro porque – quantas vezes! – se reconhecia sozinho e incapaz de os levar a cabo.

Sempre foi dono do melhor perdigueiro do mundo. Garantia ele, pobre Sr. Brandão… Um dia, andávamos nuns campos não agricultados, um emaranhado de erva brava e silvas, e o cão dele “pisou” um faisão aninhado nessa selva, mas nem deu por isso. Logo depois veio a minha Minês e ficou ali parada como uma estátua grega. – Aqui anda qualquer coisa… - Anda nada, o meu cão ainda agora passou aí! – Fui ver, a cadela mexeu-se um nico e o faisão levantou como um avião sobrecarregado, caindo redondo um bocado à frente, de um tiro. Seria o sobrevivente de alguma largada. – É, o meu cão está um bocado gordo, já cansado, parado há meses, necessita de treino…

Aprendi muito com o Sr. Brandão. Alguma arte das trutas em regatinhos, os poucos lugares onde o rio Este escapou à tragédia da poluição, lugares inóspitos da nossa terra. Nenhum ensinou ao outro a ser monárquico e ambos o eramos… Mas foi pela sua mão, com dois guardas florestais, que fui conduzido ao maior santuário famalicense do bacalhau. O qual não revelo, para manter os preços em baixa.

Entristeceu-me francamente a sua morte. No entanto, como sempre acredito, estará agora gozando em espírito todas as caçadas e pescarias que não fez e gostaria ter feito. Divirta-se e descanse na Paz eterna, Sr. Brandão!

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 28.DEZ.2017)

 

 

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