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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

A fábula de Crapaud, o sapo

João-Afonso Machado, 13.08.19

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Tudo isto na adormecida França de La Fontaine, em pleno Verão. Aliás, um Verão escaldante, em que até aos animais custava falar, e a sua vida pouco se afastava das piscinas bordejadas de agriões e outros lugares assim. O sol, inclemente quanto a sombras, entretinha-se realçando a fisionomia dos bicharocos e, nesses oceanos encrustados de lama, sobressaía a verde agilidade e a beleza de Grenouille, a rã.

Muitos se tentavam chegar. Devagarinho, com palavras mansas, a maior parte rapazotes gulosos da sua maciez, tão alva no ventre quão colorida no dorso, do seu olhar enorme, meigo e assustadiço, umas pernas de modelo na passerelle

Grenouille, a rã, a todos desprezava, de todos fugia aos pulos, indo de todos troçar longe num gargarejo estranhíssimo.

Mais cá atrás, o homem velho, calçado nos calos dos seus pés, sentiu no calcanhar algo remexendo no solo húmido, repositório do folhedo em uma pouca de água perdida. Espreitou, curioso, e descobriu Crapaud, o sapo: também ele procurava, na sua mudez, qualquer conforto em lugar amolecido. 

Revolveu a forragem e trouxe-o à superfície na mão. Depois depositou-o no chão e mandou o perdigueiro o deixasse em paz: no campo, não faltariam codornizes a entretê-lo...

E não esqueceu a expressão rendida de Crapaud, o sapo, - Será que me vais obrigar a fumar um charuto, ou outra maldade qualquer? -  Assim conformadamente, sabendo-se a eterna vítima do infortúnio. Pleno de calma, afinal nada asqueroso, somente Crapaud, o sapo.

Mas partiu sem judiarias nem mossas. Entretanto, Grenouille, a rã, pulava num gáudio soberbo em que aterrou na panela de um gourmet alucinado pelas suas pernas. Simplesmente, foi comida.

Moral da história: a celulite tem as suas vantagens; a barriga, a falta de maquilhagem, também.

 

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