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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

A calamidade

João-Afonso Machado, 11.10.18

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As máquinas roncam. A ruralidade já as aceitou, ainda com as pernas doridas de tantos séculos atrás da vaca e do arado; ou avariada das costas e farta das foucinhas indo longe de mais, cortando o milho e os dedos dos utilizadores.

Milho de oiro, milho-rei, milho encofrado no celeiro. Era. O de agora verde nasce e verde morre, no desvaste das ceifeiras mecânicas. Trucidado, feito em bocadinhos, rapado a eito como se a peste invadisse o campo todo. E o acaso confunde-se com a heroicidade se um ou outro pé que lá consegue escapar ao massacre.

A vida dos humanos foi assim e tende a tornar a ser. As chacinas vêm vindo do passado para o futuro. Do tempo em que os romanos maldiziam a calamitate, a doença que lhes atacava os caules das plantas, até ao domínio da tecnologia de amanhã. Pé que escapasse, pé que ficava, símbolo de resistência. Mas não, o homem em breve descerá do tractor e virá com as suas próprias mãos...

(Ouve-se um longo troar, é a máquina devorando e arrotando. Há bocados de cereal espalhados por toda a parte, torno a ver o nosso destino  - uma calamidade).

 

 

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