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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Dora, traz a minha samarra, sim?

João-Afonso Machado, 05.12.20

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Deu, de repente, para o frio, presenteados pela quadra, pela época própria dele. Mais para norte neva com força. E a Protecção Civil faz o que é capaz de fazer - recomenda cuidado.

Dora, amiga, não esqueças a minha avançada idade. Por favor, vai ao armário e traz-me a samarra. Sim, ela está muito ao fundo, desprezada por esta tolice do aquecimento global. Mas é facílimo descobri-la: em antracite, com a gola mais bonita das cercanias (não, não fui eu, não atiro a raposas...). Enfim, não é produto artesanal, é a sucessora de outra, comprada na Feira da Ladra, que há trinta anos, tão cortês e de tão fino corte, fazia parar o trânsito. Esta, aquece-me agora, nos tempos escassos em que tenho frio. Esse frio, Dora, que vem chegando contigo. 

Cá para cima, neva no Gerês, em Montalegre, na Gralheira. Creio, no Baixo Minho não gozaremos tal felicidade. Não sei (por acaso, intimamente sei...) porque não marcho para a terra dos bois das chegas e me deixo ficar por lá...

Ainda assim, sobra temperatura deficitária para a minha querida samarra, ansiosa por vir à rua, logo mais quando for às compras. Já lhe prometi uma garrafa de bom tinto, a aquecermo-nos a alma amanhã. Também lhe prometi, a mais antiga loja de cá, uma chapelaria, está em liquidação; vou nela por um boné, outro para a colecção. E contigo, samarra, com essa nova - e ignota - cobertura mais a máscara covid, assaltaremos a diligência. Levando todo o ouro burguês, a pedalar forte na bicicleta-ciclone, escurecido o horizonte, pela sacra causa dos Reis, nossos Senhores. Há que lhes devolver o tesouro da Nação...

Senão for agora, quando poderá ser? Em breve? - obrigado Dora, volta sempre!

 

"Contos da Saudade" - outro livro, outras histórias

João-Afonso Machado, 02.12.20

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A saudade é minha. Os contos também. Andando sempre em volta de Famalicão - não estou aqui para enganar ninguém - porque é essa a minha banha da cobra. O livro ainda sairá este ano. Contra todos os covid's.

Não haverá - é evidente - apresentação pública. Mas ficam exemplares para quem quiser. Oportunamente comunicarei os meios de os obter.

Em tudo, a minha terra e, só mais do que ela, o meu ser. O resto do que sou, na idade de quem  já não vai sendo.

A seu tempo, as necessárias informações sobre um escrito que até pode ser o último. Pelo menos no género.

Um abraço, meus velhos amigos!

 

Afinal não, a minha personagem é de longe!

João-Afonso Machado, 30.11.20

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Tive de me organizar. Principiei numa camisaria em Passos Manuel e noutra lojeca ao lado, por razões óbvias e, novamente no hotel, pedi uma chamada para avisar a Salette da minha ausência. - Oh Sr. Machado! mas então não combinou com os carpinteiros eles virem cá amanhã? - Que venham. Você abre-lhes a porta e leva-os à adega e tudo se resolve, já falámos sobre o serviço. Pague-lhes e depois fazemos contas.

Excelente mulher, a Salette, mas um pouco governanta demais para o meu gosto...

Urgia agora tratar de coisas sérias. Sobretudo, onde me posicionar de tocaia para surpreender a minha personagem. Aceitei ela circulasse, ou residisse, ao cimo de Santa Catarina ou adjacências - na Rua do Bonjardim, talvez na Constituição, em Latino Coelho (quem sabe não era professora no Colégio da Paz?...). Ora, dadas estas coordenadas, o Marquês seria um ponto probabilíssimo de passagem; e no Marquês, como ponto aceitável de vigia, o Café Pereira, amplo e muito envidraçado. Ficaria...fiquei por aí, durante duas, três, quatro tardes alternando o copo de cerveja e o cigarrinho, fazendo as palavras cruzadas de O Primeiro de Janeiro, distraindo-me com as secções dos acidentes de viação e das doenças súbitas e mortais, com o que ia pelos cinemas, algum desporto, a necrologia. Até ao regresso ao hotel e a um frugal jantar... e até ao momento bendito em que o misterioso vestido negro surgiu, atravessando o jardim da praça!

De um salto estava cá fora, no seu encalço. Mas, à medida que me aproximava, ia topando uma cabeleira empastada, a tosca malha da indumentária, com um buraquinho e borboto, a falta da carteira tão distinta, uns sapatos rasos e muito deformados... E, já frente a frente, numa face borbulhenta e num buço maior do que o meu bigode, algo erguido por um timido sorriso de sacristia. Enganara-me!

Foi muito duro. Custou horrores aceitar não era aquela a minha personagem. Reunindo as escassas forças que me restavam, paguei a conta do hotel e, cerrando os dentes, segurei o volante do carro e fiz-me à estrada. Sem mesmo avisar a Salette.

Tenebrosa viagem! Escurecera, entretanto, e cacimbava. A cabeça estalava e parecia ganhar umas hastes que cresciam e arranhavam o tecto do meu carocha. Pensei não chegar, buzinei no terreiro como quem pede socorro! e o primeiro a avistar-me foi o gato da Salette, dá-me a impressão olhando para mim como quem observa um tolo irrecuperável. A dona veio à porta - Sr. Machado, que é feito de si, há dias anda desaparecido! E os meus perdigueiros, uivando lugrubemente no alto das escadas, intuindo a violência dos meus males.

Só perguntei à Salette por um chá de camomila quentinho e pela minha caminha. Nada mais queria. - Pois não, Sr. Machado, é para já. Vou só levar os cães ao quintal... - Não, não, a Dona Mécia e o Egas dormem esta noite no meu quarto!

Ficou danada, a Salette. E indo pelo que lhe pedira, ainda a ouvi no corredor - É verdade, Sr. Machado, apareceu por aí o Nel a informar que recebera um telefonema a agradecerem-lhe a reparação do carro daquela moça de fora. Parece que falaram pouco porque a chamada era cara, vinha de Lisboa...

 

Atravessando as linhas

João-Afonso Machado, 28.11.20

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Ir de comboio do Minho a Lisboa e voltar, atravessar a guerra duas vezes cheias de gente temerosa. Um vaivém furando o tempo entre pequenas janelas nocturnas. Impossível distinguir os locais e as fardas, azuis ou cinzentas, nas congeminações históricas que tentam chicotear as horas. Mas a União e a Confederação estão aí, não há vacina que as leve. Vírus mal resolvidos porque eternamente inexplicados. Onde esteve - e permanece - o Bem e o Mal?

Seria preciso tornar aos anais. Respigar de lá a permanente garrafa de bourbon e o charuto sempre rilhado de Grant, versus o aristocratismo de Lee, que não era esclavagista mas não admitia interferências dos de fora nos assuntos do seu estado, a Virgínia.

O idealismo, ou o humanismo, foram apenas uma capa. Deram a liberdade aos negros mas negaram-lhes o ganha-pão. E a miséria é a mãe de todos os vírus letais.

O comboio brame a buzina na correria, mas só para denunciar a sua presença porque, quanto a novidades, - antes não as houvesse... Dos pontos cardeais sobrou somente uma série televisiva já antiga - Norte e Sul - em que a amizade sobrevivia e se reerguia acima dos escombros da matança. Talvez se lembrem, era às segundas-feiras, em horário hoje de confinamento.

Esgueirei-me, mascarado, entre as linhas inimigas mesmo a tempo de recuperar a sua lição: que se trame a cor das fardas, haja, sobretudo, mundo por onde circular.

 

Em mágoas ginasticados

João-Afonso Machado, 26.11.20

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Não faço segredo disso, por todo o mês de Dezembro fecho a casa, pago as minhas dívidas e retiro para um lar. Com o necessário, apenas, para não enregelar nem assar - se chegar ao Verão - e a caneta, o tinteiro, os maços de papel. A escrita envelhece, emperra e, sem consciência das suas limitações, teima, aparece demasiadamente em público, não se cala.

A melhor escrita é um legado sempre, jamais um bate-papo. Ninguém precisa ser lido para escrever. A não ser já no outro mundo, claro, que é onde raramente não somos compreendidos e enaltecidos.

Mal comparadas as coisas, ocorre-me o gamo que eu todos os dias espreitava, contra a vontade do bicho. Mas eram os seus pinchos, o seu bailado entre as cores campestres da Primavera, uma vontade infrene de lhe deitar a mão, como se tudo fosse a macieza de um gato.

Não é. Nem a escrita, nem os saltaricos do gamo, muito menos certas vozes, sobretudo as mais desconfiadas. E o gamo, entretanto, fugiu. Evaporou-se. Alguém me disse o outro dia, viram-no do lado de lá do concelho. Foi outro desgosto: preferiria admirar aquelas pernas agilíssimas pulando nas areias, de rabo alçado, longe e mal agradecido. Com a neblina a enrolá-lo, esfumando corpos e sonhos.

Não por masoquismo, sequer por romantismo. É apenas porque Pedro Homem de Mello tinha razão: «(...) no fundo azul de cada mágoa/Fica a certeza firme da ilusão». Ora aí está. 

 

É do Porto a minha personagem!

João-Afonso Machado, 25.11.20

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O meu estado de alma faria choramingar os mais empedernidos. Olhei-me, por mim todo, anoitecia já, e não me senti com forças para a viagem de regresso, ali perdido em plena Baixa. Decidi então, terminantemente, esta noite dormiria na cidade. No Grande Hotel, o meu hotel de sempre, o velho hotel do Eça, um grande amigo da minha Casa. Em Santa Catarina, onde decerto o meu costumeiro quarto não fora ocupado por algum estranho. Cigarro pisado, num rompante entrava nessa velha amizade - Sr. Machado! Já pensávamos nos tinha esquecido! - Qual quê, Sr. Lopes!

E fui anunciando a minha voracidade de ténia. A qual matei, queirosianamente, com um bacalhau de cebolada, indo a hora tardia. O resultado foi uma luta acesa com a digestão, cama nem pensar, o salão e a telefonia... mas em Portugal há mais novidades além do fado? Ou jornais, criticas, acendalhas políticas?

Por isso o pecado surgiu no meu pensamento. Surgiu, de rompante, e foi descendo aos Aliados, à Mouzinho da Silveira (adequado topónimo, o deste tresmalhado do rebanho do Senhor!), só parando no Infante e nas suas nativas de Pontevedra, sempre muy guapas. E atrevidas...

No dia seguinte, ou no clarear de tal madrugada, a cabeça uma lástima espetada nas minhas mãos, os cotovelos na janela do quarto. Sofrendo erupções sucessivas de espumante de última categoria... E tentando ganhar forças para tornar à terra onde o Nel mecânico - consolava-me eu - decerto já andaria de olho em cachopa mais ao seu jeito. O mal é que a minha personagem mantinha ainda vaguíssimos contornos.

Pois foi nesse arejo, nesse recobro, que juraria tê-la visto, entre os transeuntes de Santa Catarina, mais lá para cima, subindo junto à Capela das Almas, sempre de cetim negro, a elegância a pontuá-la, e a sua longa cabeleira a dourar-lhe as costas. Desta feita com um saco de papel nas mãos, parecendo acabadinho de sair de uma livraria! Ia em andar reflectido, vergado ao peso de quem medita.

Espinoteei. Mas de nada valeria sair e segui-la, logo a perderia na multidão. Fiquei hipnozitado pelo seu ocaso, convicto da arquitectura da sua casa, uma dessas burguesas, ricas  e apalaçadas, com piano de cauda, lugar de cultura e bom gosto.

Termino em dúvida e amargura: regresso ou permaneço? Trago os perdigueiros e batemos a zona? Obrigamo-la a levantar voo?

E entre toda esta tempestade, oiço o melífluo Majestic chamando incessantemente por mim...

 

Cá vamos, ouvindo as ruas

João-Afonso Machado, 21.11.20

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É, a vida anda, apenas sobressaltada pelas estatísticas pandémicas. Com os vivos escondidos a chorar os mortos e tremendo por si próprios. Estranho modo, este, silencioso, oculto, sem alguém a falar de si ou dos seus. A vida, afinal, é recatada e cingida à sua ruazinha. Como, profeticamente, Irene Lisboa a descreveu, posta na sua janela, sozinha, de olho atento nas banalidades do quotidiano.

Já só quase as temos. A conversa dos empregados, o pregão das sardinheiras, a intriga da lojeca, qualquer escandalozinho comentado nos saguões. Era - é - a vida! Porque os hipermercados são, apenas, a manada pasmacenta.

E uma vida crua, como IL a descrevia. Sem moral, sem ajuizamentos, somente sobrevivida hoje, fugindo a ideias sobre amanhã. Humilde, dramática, sensivel. Com muitas notas de um colorido triste, mas rico em palavras. Vagaroso, sem gramáticas esdrúxulas, justamente ouvindo o som das vozes.

Como aqui na rua, íngreme e faladora. 

Também Augusto Gil e dois volumes seus - a obra toda - entre o panfletarismo e a heresia e os sinos do campanário.

(A uma velha capa que S. João deixou/A Virgem Maria ainda a aproveitou.../Escolhendo a parte menos gasta e puída,/Desfaz-lhe as costuras, tira-lhe a medida,/Talha uma roupinha para uma criança/Que era a mais rotinha das da vizinhança...)

São assim os dias correntes. Incessantemente parados, sem vento à vista, velame inútil num Oceânico Pacífico de letras e enredos.

 

A minha personagem fugitiva

João-Afonso Machado, 18.11.20

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Supunha-a definitivamente segura comigo, a minha nova personagem, entregue aos sonhos românticos do Nel da oficina. Já não fugiria, mesmo porque o cetim escuro do vestido retinha a sua elegância mas tolhia-lhe os movimentos. E a nossa terrinha jamais estaria disponível para uma qualquer correria em saltos altos, ou para que tão elevados cuidados cosméticos se descompusessem ou despenteassem.

Não, a minha personagem era já só uma pausada questão com a minha caneta e o meu consabido apreço por mulheres atraentes. Ainda na cama, preguiçosamente, lia o jornal e pensava ao de leve na sua facial macieza, naquele olhar feminino mas tão determinado.

Nisto, a Salette bateu à porta com um excessivo vigor, diria mesmo, despropositado, - era o Nel, lá em baixo, nem parecia ele, pobre moço, a chorar, assunto de vida ou de morte, se eu descia...

Que remédio! - Então Nel, o que é isso?! - Oh Sr. Machado! Ela fugiu! - Fugiu? Que nada, foi embora apenas. De resto, está aqui nas minhas notas, rapaz! - O Sr. Machado faça o favor de ver bem, olhe que ela fugiu. Lá se vai a nossa história!

Levei a mão ao bolso e, na verdade, - népias! Que diabo, nem eu podia prescindir daquela estética, do timbre inimitável da sua voz, tudo iria devagarinho, mas iria. E agora?

O Nel categoricamente insistia eu fosse à cidade. Encontrava-a lá, tão certo como ele se chamar Nel, alguém a vira partir na direcção das praias.

- Mas Nel, tu tens ideia do tamanho da cidade? Achas que eu vou encontrar a nossa agulha nesse palheiro?

Que não, Sr. Machado, que não... Uma menina assim dá-se logo por ela, nem que fosse na China. Alta, o cabelo arruçado, assim vestida, a andar assim...

Resignei-me. Peguei na navalha, desfiz a barba e deixei dois lanhos na cara. Abotoei uma gravata mal-humorada, fui buscar a cigarreira, a carteira, o chapéu...

- Oh, Sr. Machado! Muito, muito obrigado! E quando precisar mudar o óleo do seu Bolcsbaige, qualquer reparação, é só passar na oficina!...

Abalei. Entrei pela Via Norte mas não me aventurei no carro até à Baixa. Andei por Carlos Alberto e os Leões, enfiei a pescoceira nos Cunhas. Entre o mundo académico e os bons armazéns... E depois apanhei o eléctrico, desci os Clérigos, subi Santo António e fui à Batalha: quem sabe, menina culta, não a encontraria nas lides artísticas do Teatro S. João?

Enfim, acabei lanchando na Arcádia, onde diariamente se encontra a nata da sociedade tripeira. Mas nem aí... Desconsoladíssimo chá, o meu, sensaborona torrada. A pardalada chilreava já, ensurdecedoramente, nas árvores sobre a paragem dos eléctricos e eu ali estuporado, de mãos nos bolsos, o Português Suave ao canto da boca e o chapéu na nuca. E agora? Se o Nel perdera o rasto da apaixonada, fora-se-me o aroma, a expressão, os tiques e os gostos, o passado da minha personagem. Como prosseguir os meus dias, como sobreviver a esta calamidade?

 

Gladiador

João-Afonso Machado, 17.11.20

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A bem dizer, a infância era já um árduo treino na arte da luta corpo-a-corpo. Tendo por arena os galinheiros, percebe-se porquê.

A família, numerosa. Os ovos, um alimento fundamental de consumo diário. E aos infantes já de verbo na boca competia ir por eles, assim enfrentando a fúria dos gansos capitolinos.

Imperavam altivos em toda a capoeira. As galinhas, as suas escravas; os galos, um adorno, tal como os inofensivos patos e o pavão; e os perús, a sua tranquilidade natalícia.

Os gansos machos, quais leões, sobretudo ostentavam a sua pose varonil. Mas as gansas silvavam como serpentes e investiam de pescoço raso e bico de crocodilo. Aos cinco ou seis anos de idade combatia-se já pela sobrevivência, de elmo plástico na cabeça, espadas fundidas em aparas de tábuas e escudos de madeira circulares, antigos tampos de retrete.

Por couraça, o bibe. De calções e meias de lã até aos joelhos, servindo de caneleiras. Suportando os sucessivos ataques das gansas, de asas abertas como as dos dragões lança-chamas.

E o escudo ora em cima, ora mais abaixo, a suster esses arremessos, a espada acutilando sem dó nem piedade. Por vezes a benfazeja ajuda do mastim fox terrier, ladrando e dando à cauda, acirrado pelo chinfrim.

Entre mortos e feridos, terminada a lide, os ovos chegavam geralmente intactos ao destino, onde uma Avó das antigas, grata e generosa, prontamente distinguia o gladiador com a palma dos triunfadores e o recompensava, então, com a dádiva da liberdade.

 

Dois personagens e uma história improvável.

João-Afonso Machado, 14.11.20

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Que dizer de há sessenta e tal anos atrás e das nossas estradas empedradas e escorregadias, felizmente  ainda pouco transitadas? - Dizer, tão-só, o óbvio, essa paixão eterna vinda à tona na avaria de um entardecer nos fulgores de um então jovem mecânico.

Um herói por um par de horas, a menina, muito bem apessoada, cheia de despacho e conversa, no fim grata e sorridente. E o carro dela, uma arrastadeira quase da sua idade, a devoção do seu saudoso pai - explicou - não, jamais se desfazeria do carro. Mas frequentemente o diabolizava pelas suas pannes.

Fora o que acabara de suceder. Conseguira levá-lo no balanço até à berma, já o sol caía e nem uma cabine telefónica, um poste de electricidade... Nada, nada, salvo um lugarejo qualquer perdido no horizonte

E assim ela se fez à estrada, de vestido cintado, escuro, e os saltos dos sapatos muito desemparelhados com as armadilhas do pavimento. Mas sempre firme, decidida, a carteira debaixo do braço. Nesses quilómetros todos sem vivalma.

O mecanicozito rendeu-se a tanta sofisticação. E às cantilenas dos camones com que a menina entretinha a espera. O reboque fora buscar a arrastadeira, e ela com ele e o chefe da oficina, muito desempoeirada, nunca lhe tremendo a voz em recomendações e indicações.

Se não o tolher o serviço militar, aspira o mecanicozito aos seus estudos na grande cidade. Talvez as suas idades e os seus lugares não sejam muito conciliáveis, mas é lá que ele tem a certeza a reencontrará, então já provido de noções e argumentos, já lido e armado de coisas assim imprescindíveis...