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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Conta-me como foi"...

João-Afonso Machado, 29.12.10

Em 1970, muitos partiram, passando fronteiras no breu da noite e no aperto de um coração que não ignorava a fria eficiência das carabinas dos guardas. Iam assim, a monte (como então se dizia), rapazes novos ainda, em busca de um longínquo 2011 da sua velhice, calma, desafogada, aquecida à lareira de qualquer comérciozinho na terra que lhes foi berço e os viu dizer adeus - até ao meu regresso...

Em 1970, muitos partiram para uma vida de cão, em casotas chamadas bidonvilles, na inabalável convicção de que regressariam para um 2011 de bem-aventurança, entre filhos, netos, familia e amigos.

Em 1970, os que partiram, não sendo mal-sucedidos, sempre arranjavam posses e vagar para uma breve escapadela, uns dias com os seus, talvez não mais do que os da viagem, num comboio ronceiro, a chocalhar o seu equilíbrio em cima de tanta tralha (mas como não trazer uma lembrança para a mulher e o miúdo?, como não regressar com uma desproporcionada provisão de presunto e o garrafão, desde a infância os seus camaradas?).

Em 1970 era assim, porque 2011 chegaria um dia. Se não já na sua existência, pelo menos na maturidade dos filhos. A poupá-los a tanta carestia de tantas décadas.

Mas em 1970, se fosse possivel visionar o 2011 que está aí à porta, decerto o emigrante teria emigrado. Só que - definitivamente. Com direito a nova nacionalidade e tudo. Chamando de lá a família inteira. Para França, para a Alemanha, para o Luxemburgo, para a Bélgica, para a Grã-Bretanha. Para o fim do mundo. Nunca concebendo, nos seus planos, o regresso a uma pátria que o maltratou, lhe cobiçou as divisas - as célebres divisas! - remetidas, e agora nos oferece desemprego e privações em troca de ... confiança.