Platónicamente....
«A Avenida sobe, interminável, num mutismo tão longínquo do buliçoso centro da vila. Dirigiamo-nos à Estação, na peugada de um vulto solitário que marchava adiante um pedaço - um vulto feminino, trigueirinho, que o coração do Gabriel Amandi elegera para amar. Mas faltavam-lhe as palavras e as forças, tolhia-o uma inibição imensa, que mais não lhe consentia senão estas vigílias. Era no regresso das aulas e a menina encaminhava-se para o comboio que a levaria a casa. Sentávamo-nos na gare, irrepreensivelmente afastados, sem ditos, sem gestos, como se o Gabriel se quisesse invisivel. A automotora aproximava-se, vinda do Norte, ronceirando, a expelir uma fumacinha pela chaminé. E aquele anjo moreno - bem engraçado, sim senhor! . entrava, sem olhar para o lado, o chefe da estação soprava no apito e o Gabriel consumava a sua paixão, vendo-a sumir na primeira curva da linha férrea».
(in Famalicão - Recordações de uma Vida, ed. Circulo de Cultura Famalicence)
