A fisgada de Cavaco
Soube-se ontem aquilo que já todos sabiam. Ou talvez não: nestas andanças políticas há sempre umas subtilezas, e o facto de o cidadão Aníbal Cavaco Silva ser, garantidamente, um candidato à Presidência da República não significa, de per si, que o Presidente Cavaco Silva se candidate à recondução no cargo. As coisas são como são e, afinal, em nem tudo o que parece é.
Mas sentia-se a necessidade da novidade. Do sacudir da monotonia. Cavaco Silva, pensou, deitou contas à vida e deu com a calculadora em Espanha. Onde a fotografia de Juan Carlos não se passeia, colossal, nos cartazes de parede, a ajudar à facturação das gráficas. Numa dessas cimeiras ibéricas, o Presidente da República Portuguesa confidenciou a Sua Magestade, a propósito da crise mundial, o meio que alcançara de remar exemplarmente contra a maré.
- É preciso poupar. Eu vou dar uma lição aos meus adversários...
- ???
- Sim, contando sempre com a discrição de V. M., transmito-lhe já a minha genial ideia...
- !!!
(E porque ainda era Maio, foi-se à terceira fatia de doce da Teixeira. Vorazmente).
- A coisa está entabuzada, por ora, porque quero que os outros se espalhem. É deixá-los afixar os outdoors e depois cair-lhes em cima. Não há cá despesas com papel. Os tempos são de contenção... Grande fisgada, hem?
- ...
- Então V. M. não comenta?
- Lo sabes tu...
- V. M. põe reservas?
- Mira... Em Espanha não se usam cartazes publicitários do seu Chefe de Estado. Os espanhois preferiram gravar a sua efígie nas moedas de um euro. É menos colorido, mas não desbota com o sol e a chuva.
O Presidente Cavaco ia replicar, mas sentiu uma forte cotovelada, vinda do lado, e ouviu-se uma voz feminina, bem portuguesa:
- Porque no te callas?
