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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

A fisgada de Cavaco

João-Afonso Machado, 27.10.10

Soube-se ontem aquilo que já todos sabiam. Ou talvez não: nestas andanças políticas há sempre umas subtilezas, e o facto de o cidadão Aníbal Cavaco Silva ser, garantidamente, um candidato à Presidência da República não significa, de per si, que o Presidente Cavaco Silva se candidate à recondução no cargo. As coisas são como são e, afinal, em nem tudo o que parece é.

Mas sentia-se a necessidade da novidade. Do sacudir da monotonia. Cavaco Silva, pensou, deitou contas à vida e deu com a calculadora em Espanha. Onde a fotografia de Juan Carlos não se passeia, colossal, nos cartazes de parede, a ajudar à facturação das gráficas. Numa dessas cimeiras ibéricas, o Presidente da República Portuguesa confidenciou a Sua Magestade, a propósito da crise mundial, o meio que alcançara de remar exemplarmente contra a maré.

- É preciso poupar. Eu vou dar uma lição aos meus adversários...

- ???

- Sim, contando sempre com a discrição de V. M., transmito-lhe já a minha genial ideia...

- !!!

(E porque ainda era Maio, foi-se à terceira fatia de doce da Teixeira. Vorazmente).

- A coisa está entabuzada, por ora, porque quero que os outros se espalhem. É deixá-los afixar os outdoors e depois cair-lhes em cima. Não há cá despesas com papel. Os tempos são de contenção... Grande fisgada, hem?

- ...

- Então V. M. não comenta?

- Lo sabes tu...

- V. M. põe reservas?

- Mira... Em Espanha não se usam cartazes publicitários do seu Chefe de Estado. Os espanhois preferiram gravar a sua efígie nas moedas de um euro. É menos colorido, mas não desbota com o sol e a chuva.

O Presidente Cavaco ia replicar, mas sentiu uma forte cotovelada, vinda do lado, e ouviu-se uma voz feminina, bem portuguesa:

- Porque no te callas?