Na hora da mudança
Houve sempre essa janela que abria para o telhado da ala do pessoal. Rasgava-se em sonhos de meninice quando, o ano inteiro, as caricas eram todas apenas de garrafas de água-das-pedras e essas ondas cerâmicas, alaranjadas, tufadas de musgo, outros as juravam coalhadas de mil marcas e cores, caricas rarissimas, mas por asas de quem elas teriam poisado ali?
E a janela alimentava mais crenças ainda, e histórias antigas do celeiro, em baixo, assaltado em pazadas de milho na calada da noite. Da mesma noite em que o Avô, a precisar desesperadamente de aventura, se despedia trepadeira fora e rumava caminhos que já o Avô dele conhecia de olhos fechados. É bem verdade, quem sai aos seus não degenera...
Mas uma pacata janela agora, virada a norte, como se de costas para os conflitos. Deixando somente a luz penetrar sobre a secretária, papeis que urgem ser lidos, decifrados, perpetuados os seus dizeres. Sobre uma cama de pau e aquele armário onde se acoitam armas e munições para uma felicidade imensa de perdizes e coelhos e...
(...talvez voltem os javalis também...).
À noite será muito a cidade. A cidadezinha, bem entendido. Depois dos livros. Na hora do coração. Fica a promessa.
