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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Das "Memórias de um Átomo"

João-Afonso Machado, 25.03.12

«Meu estimadíssimo Amigo:

Venho agora da Feira Agrícola de Braga, triste, descoroçoado, vazio. Quase só trazendo na Ideia um duende vagamente britânico com prosápias de mestre em energias renováveis. Veja o meu caro Amigo a que ponto chegámos de desportugalidade!

E não me parece tenha sido por distracção minha. Corri a Feira de ponta a ponta. Nada topei de surpresa, ressalvando a circunstância de ter perdido o coração num qualquer pavilhão termal de Orense, creio que nas profundezas lacustres de um olhar azulíssimo. Lá tornei duas ou três vezes, mas esse azulíssimo lacustre e galego foi como se não me olhasse mais. De modo que já me vejo a caminho de Orense, em busca das minhas pupilas, ainda assim peças preciosas no meu quotidiano. Conhece o excelente Amigo algum paradero onde com paciência, cirurgia e precisão eu consiga realizar tão delicada operação?

O mais foram estrangeirismos. Mesmo essa pretensa ciência do duende... Então e o nosso Sousa Veloso, o nosso Casqueiro, até o nosso Arlindo Cunha, se nos predispusermos a praticar exactamente o contrário do que ele doutrinava?

É certo, havia o gado nacional. Mas muito dividido por restaurants, um para o maronês, outro para o arouquês, outro para o minhoto... E sempre com um gaúcho de avental e faca assassina à porta, clamando pelas gentes... Fugi!

Nem sei que mais lhe diga. Nas trupes dos bombos predomina agora o elemento feminino... O meu intransigente Amigo, mai-lo seu cepticismo, bradará aos céus, imaginando Braga avassalada por tremenda mitologia florestal... Não seja assim. O Progresso merece o nosso abraço. Não caro Amigo: suportando os bombos, o nosso honrado sangue suevo, loiro, trigueiro, saudavelmente trigueiríssimo. E muito composto em juventude fresquínha, a deixar-nos na máxima consternação por não ter sido assim quando ainda nos arrogávamos desse qualitativo etário.

O resto era fogo-de-vista insonoro. A começar pela infernal parafernália de alfaias agrícolas, coloridas como nem os zulus nem os vátuas iriam tão longe. Um atentado à Estética, uma inutilidade neste Minho onde o cereal há-de dourar ao sol, há-de ser debulhado, há-de ser tragado por turistas gulosos e endinheirados.

Perdoar-me-à o meu avidamente curioso Amigo esta escassez de informação. Sigo em viagem. Ainda apanharei o rápido da noite. Vou a Paris, à Exposição Universal. Aí espero descobrir um galo de Barcelos e uma N. S. de Fátima para oferecer ao bom Padre Serafim, desconsoladíssimo como Ele anda com a Pátria e os dias que a Pátria aguarda sem reacção. Que lhe sirvam à sua preclara fé de bom português, bom patriota.

Por isso me despeço, meu Amigo, a correr,

sempre atento, sempre seu admirador,

J.da Ega»

 

(Com cuja devida autorização, que muito agradeço, transcrevo esta missiva).

 

 

 

 

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