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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

É do Porto a minha personagem!

João-Afonso Machado, 25.11.20

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O meu estado de alma faria choramingar os mais empedernidos. Olhei-me, por mim todo, anoitecia já, e não me senti com forças para a viagem de regresso, ali perdido em plena Baixa. Decidi então, terminantemente, esta noite dormiria na cidade. No Grande Hotel, o meu hotel de sempre, o velho hotel do Eça, um grande amigo da minha Casa. Em Santa Catarina, onde decerto o meu costumeiro quarto não fora ocupado por algum estranho. Cigarro pisado, num rompante entrava nessa velha amizade - Sr. Machado! Já pensávamos nos tinha esquecido! - Qual quê, Sr. Lopes!

E fui anunciando a minha voracidade de ténia. A qual matei, queirosianamente, com um bacalhau de cebolada, indo a hora tardia. O resultado foi uma luta acesa com a digestão, cama nem pensar, o salão e a telefonia... mas em Portugal há mais novidades além do fado? Ou jornais, criticas, acendalhas políticas?

Por isso o pecado surgiu no meu pensamento. Surgiu, de rompante, e foi descendo aos Aliados, à Mouzinho da Silveira (adequado topónimo, o deste tresmalhado do rebanho do Senhor!), só parando no Infante e nas suas nativas de Pontevedra, sempre muy guapas. E atrevidas...

No dia seguinte, ou no clarear de tal madrugada, a cabeça uma lástima espetada nas minhas mãos, os cotovelos na janela do quarto. Sofrendo erupções sucessivas de espumante de última categoria... E tentando ganhar forças para tornar à terra onde o Nel mecânico - consolava-me eu - decerto já andaria de olho em cachopa mais ao seu jeito. O mal é que a minha personagem mantinha ainda vaguíssimos contornos.

Pois foi nesse arejo, nesse recobro, que juraria tê-la visto, entre os transeuntes de Santa Catarina, mais lá para cima, subindo junto à Capela das Almas, sempre de cetim negro, a elegância a pontuá-la, e a sua longa cabeleira a dourar-lhe as costas. Desta feita com um saco de papel nas mãos, parecendo acabadinho de sair de uma livraria! Ia em andar reflectido, vergado ao peso de quem medita.

Espinoteei. Mas de nada valeria sair e segui-la, logo a perderia na multidão. Fiquei hipnozitado pelo seu ocaso, convicto da arquitectura da sua casa, uma dessas burguesas, ricas  e apalaçadas, com piano de cauda, lugar de cultura e bom gosto.

Termino em dúvida e amargura: regresso ou permaneço? Trago os perdigueiros e batemos a zona? Obrigamo-la a levantar voo?

E entre toda esta tempestade, oiço o melífluo Majestic chamando incessantemente por mim...