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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Dois personagens e uma história improvável.

João-Afonso Machado, 14.11.20

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Que dizer de há sessenta e tal anos atrás e das nossas estradas empedradas e escorregadias, felizmente  ainda pouco transitadas? - Dizer, tão-só, o óbvio, essa paixão eterna vinda à tona na avaria de um entardecer nos fulgores de um então jovem mecânico.

Um herói por um par de horas, a menina, muito bem apessoada, cheia de despacho e conversa, no fim grata e sorridente. E o carro dela, uma arrastadeira quase da sua idade, a devoção do seu saudoso pai - explicou - não, jamais se desfazeria do carro. Mas frequentemente o diabolizava pelas suas pannes.

Fora o que acabara de suceder. Conseguira levá-lo no balanço até à berma, já o sol caía e nem uma cabine telefónica, um poste de electricidade... Nada, nada, salvo um lugarejo qualquer perdido no horizonte

E assim ela se fez à estrada, de vestido cintado, escuro, e os saltos dos sapatos muito desemparelhados com as armadilhas do pavimento. Mas sempre firme, decidida, a carteira debaixo do braço. Nesses quilómetros todos sem vivalma.

O mecanicozito rendeu-se a tanta sofisticação. E às cantilenas dos camones com que a menina entretinha a espera. O reboque fora buscar a arrastadeira, e ela com ele e o chefe da oficina, muito desempoeirada, nunca lhe tremendo a voz em recomendações e indicações.

Se não o tolher o serviço militar, aspira o mecanicozito aos seus estudos na grande cidade. Talvez as suas idades e os seus lugares não sejam muito conciliáveis, mas é lá que ele tem a certeza a reencontrará, então já provido de noções e argumentos, já lido e armado de coisas assim imprescindíveis...