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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Amostra onírica

João-Afonso Machado, 09.11.20

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De surdina, gatinhando, ainda a dia pensava em aclarar. Acocorado, o parceiro canídeo imitava esses passos de militar comando durante horas polares de aproximação. Era uma lagoa famosa pelos seus patos, um paraíso quase inacessível, ninguém ainda lá chegara com resultados palpáveis. Seria ele... - o primeiro!

Por isso, a humidade e depois o encharcanço, as sopas frias de roupa, sempre rastejando a bater o dente. Na obsessão do troféu, da proeza que para os caçadores é o inesquecível almoço, o discurso já a aquentar, as saudações de copo erguido e o bagaço a alumiar as pontas dos pés; até ao taxi prudente e à caminha aconchegadora.

Adiante. Estávamos na emboscada. Abrindo brechas nos juncos, vagamente clareava o nascente. O copincha, obedientíssimo, - uma salva de palmas para o Egas! - outrossim encabeçado pela boina das tropas de elite. Sem negligenciar o focinho enfarruscado.

Eis-nos, então, de repente, perante o bando, ainda dormitando nas águas quietas da lagoa. Mesmo ali, umas dezenas deles, pensou - vou à cartucheira, mudo para chumbo mais fino, em dois tiros matos três ou quatro... - Egas?, a postos para ir buscá-los?

Foi a maré do acordar do sonho. O Egas e a água eram um banho gelado naquele regalo. Algo batia mal, o impossivel caiu-lhe em cima das pernas já arrefecidas. Patos, matara muitos. Até se apiedara deles. Enfim desperto, ocorriam-lhe os seus pescoços esticados em voos de pânico. Prometera a si mesmo não lhes atirar mais. Se calhar precipitadamente, porque o onirísmo perseguia-o, mesmo sendo Egas um citadino não transingindo com o mínimo de conforto necessário... Estremeceu-se num solavanco. Estava num banco do parque da cidade, o lago enorme defronte. Egas abanava a cauda, como se visse o dono regressar à vida. Realmente, os velhotes têm cada uma!