Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Vésperas

João-Afonso Machado, 26.09.20

IMG_3604.JPG

Nota bem, esse teu olhar tem hora marcada: nunca antes do cachimbo e do nosso serão. Nem antes nem depois. Tu não és o Nero dos Bichos do Torga, cinquenta e cinco anos de idade nos separam, ala que se faz tarde e as perdizes são sobretudo matinais. É, caro Egas, tens uma estirpe a cumprir -  a estirpe do avô Jardel e da avó Minês, e a do Paio, da Dona Mécia, da mãe Tareja. (A tua mãe, a cadela mais meiga que ao mundo veio, uma fera em terrenos de caça, a inveja dos caçadores em seu redor.)

Eu sei, os tempos vão maus e a idade deste teu pai já não ajuda. O Alentejo é distante, a caçada está em coisa pouca. Mas, meu Egas, a vida vai-se coxeando assim mesmo. Tapete quando tal, e monte se ele nos chama. Temos já programa? - Não!, não temos. Mas algo surgirá, disso estou certo.

Havemos de carregar a arma, assim tu sigas depois as minhas instruções: nariz fino e corpo dominado; boca de alface e espírito de entrega apontado à minha mão.

Oiço já o bater de asas delas, velhote. Este ano será dourado, Deus diz. Não há muitos mais pela frente - para mim, é claro; não para ti, criancinha de colo. Indo nós, anda-me com essa merda para a frente, não me envergonhes.

Nem queiras ficar órfão... Depois com quem conversarias em serões cachimbados? Mas se continuas a olhar-me com esses olhos, até a espingarda se me derrete nas mãos.