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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Um minhoto na Capital

João-Afonso Machado, 19.08.20

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Com Lisboa repelindo já o invasor normando, ela aventurou-se cá fora, embuçada e cautelosa. Encontrei-a, por mero acaso, deambulando no Terreiro do Paço, quando cogitava se havia de atravessar o rio e dar um adianto no meu estudo sobre churrasqueiras nacionais.

Foi a festa do costume! Lamentavelmente, sem abraço nem beijinhos, conforme a nova moda do distanciamento social. Mas sempre tilintando das suas pulseiras, nada bronzeada, praias com semáforos e fitas métricas - não! E, cintilando, a ideia sua:

- Vamos a Cascais?

Eu acho, ninguém vai a Cascais depois que mataram o Rei e o Príncipe Real. Porém, como recusar? Fomos.

A vila estava animada. O mar chão, a Praia dos Pescadores muito colorida das traineiras. De súbito, um sulco cavado nas águas e a minha amiga gritando de excitação:

- Olhe o nosso Presidente! Lá vai ele salvar mais um afogado!

Sem óculos, cegueta e ofuscado pelo sol, ainda alvitrei:

- Não será um golfinho brincalhão?

(Gosto muito mais de golfinhos do que de presidentes da república...)

- Qual golfinho! É o nosso Marcelo. Aposto que está no mar alguém aflito e aí vai ele!

Imperava o silêncio. Àquela velocidade o presidente, com toda a certeza, ia chegar atrasado ao salvamento. E a vítima devia ter submergido já, atacada por um tubarão. (Negando-me os golfinhos, eu replico com carnívoros letais...)

Servisse o tilintar das suas pulseiras para incutir ao moribundo uma réstea de esperança, surgiam os bombeiros de Cascais, chocalhando a sineta do seu "meio terrestre".

E conclui: a nadar assim, tivesse eu trazido o maillot e o salvamento seria obra minha. Obviamente cederia, então, os meus créditos à Casa Real portuguesa.