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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA com prognóstico reservado

João-Afonso Machado, 01.08.20

HOSPITAL MILITAR.JPG

Aparentemente seria apenas da sua já avançada idade. (Sim, ninguém tema, tudo bordeja muito ao largo do Covid19.) É, realçando, a prostração, o alheamento, a pena enferrujada e o tinteiro quase seco. Uma imensa vaga de desalento, ainda maior do que as do mar calamitoso ou do calor maldito. Recolheu a casa, passa dias sem se erguer da cama.

Os vizinhos foram visitá-lo. E a Miquinhas veio de lá com notícias, um semblante sucumbido - Está mesmo muito malzinho... - desabafou. Cercada por uma curiosidade canibalesca, disse mais - Já vomita tinta negra! - E para as mais lerdas, num bufo de ave carniceira, - É sangue repisado!

O médico veio, conquanto não chamado por MACHADO, JA.

Foi uma visita curta. O facultativo tomou-lhe o pulso, auscultou-o, apalpou-lhe as entranhas... e propôs-se sangrá-lo. Numa súbita valentia de voz, firmíssima, MACHADO, JA redarguiu - Com o devido respeito, Sr. Dr., vá-se foder!

Assim tudo ficou nos costumeiros caldos de galinha e umas papas de linhaça precavendo convulsões.

Também eu mandei um bilhete e depois me avistei com o enfermo. Conversámos ao de leve. Frisou, deixassem-no em paz, aquilo era cansaço, estafa. Férias, apenas férias... e logo a pena voltaria ao tinteiro.

Despedi-me algo agastado. Que será de nós quando chegarmos à sua idade?