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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

O meu Borgward

João-Afonso Machado, 06.07.20

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As velhas luvas em cabedal fininho, de primeira qualidade, resistentes até mais não, deixando as falangetas de fora, são a mini-saia herdada de um tio militarizado e vetusto. Um senhor! O cachimbo esguio e de tão bom fumar, enfornado de aromas especiais, também. Esse tio era um germanófilo fanático - velho e saudoso tio! - de quem toda a vida, a medo, escondi a minha anglofilia. Não fora assim, no que me iria meter!

Mas, tão forte a sua ligação a este seu sobrinho, na hora triste da despedida, rezava o testamento as ditas luvas e o cachimbo assessoravam o grande legado a meu favor - o Borgward do seu coração, o carro que conduziu sempre, enquanto as forças lhe consentiram andar na estrada.

Deixou-nos vão lá uns anos. Jamais me ocorreu modificar as suas cores, ou fosse o que mais fosse. A máquina - impecável, rosnando sempre no sotaque de Bremen. Somente, resguardei-o para percursos breves, condizentes com a sua idade. E conciliei os dois lados do Atlântico com o meu casado de tweed, a gravata fininha, discreta, e o meu boné preferido, made in Newcastle. Jamais negligenciando as venerandas luvas e o cachimbo, carregado de flavours escoceses, vale dizer,  de whiskys fumados. E assim ele se mantém rijo e, se se enerva e acelera, ruge a ultrapassa a malta pacóvia.

Ultimamente, ouvi algures, o malandro do Borgward tem uns parentes da geração dos meus netos. Não gostou da novidade, devo confessar. Queixou-se, seria gente bastarda. Prometi estudar a sua genealogia, saber o que se passava, cachimbei com mais força a firmei as luvas no seu avantajado volante. Que não se fosse abaixo das rodas... Para já, averiguei, tinha uma parente muito atleta, muito germânica, de seu nome Isabella. Se fosse viva, andaria pela idade do meu Borgward, quiçá um pouco mais nova. Terá sido dela essa descendência espúria? Ao que consta, usava já uma mini-saia tão curta quanto as luvas que me foram legadas.

 

A Monarquia pelo Minho - V. N. de Famalicão

João-Afonso Machado, 05.07.20

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No meu regresso a Famalicão, terra das minhas origens, depois de longos anos de ausência, fui reencontrando ou conhecendo pessoas, recriando ou criando novas amizades, enfim.

A breve trecho, já me organizava entre grupos vários e casas de comer e frequentava uma animada tertúlia das mais diversas proveniências políticas.

V. N. de Famailicão é uma cidade, um concelho, de trabalho e modernidade, onde não é provável encontrar alguém invocando vetustas raízes e tradições nobiliárquicas dos seus antepassados. É esse o contexto ideal para avaliar certas e determinadas convicções de princípios ou de ideologias.

Sem nada pedir ou perguntar, os meus conterrâneos, amigos de longa data ou mais recentes, vieram tendo comigo, versando o Ideal que jamais abandonei, e já era meu quando daqui parti para a minha vida profissional. Sabiam-me um indefectivel da Monarquia. E manifestavam, então idênticas convicções. Em alguns casos, reconheço, para imensa surpresa do meu lado. Mas – sempre sem nada pedir ou perguntar – fui ouvindo essas vozes todas. Gente inconformada, saudosa de uma História com o garbo de antigamente, revoltada com o Presente, descrente do Futuro. E espantosamente bem informada, de alma devota ao nosso Rei.

Assim reforcei contactos, criei até um grupo comparsa. Da boa conversa, de permanente renovação de fé. Pelo menos em dois restaurantes, começando pelos seus proprietários e prosseguindo nos comensais, o debate pauta-se pela sintonia – para Portugal, a Monarquia!

Ficou-me a crença, não é o tempo de institucionalizar, ou de programar o que seja, em função destas boas ideias. Mas apenas de deixá-las fluir. De resto, intentasse eu tal propósito, o meu anarquismo nato – invoco o saudoso Camossa Saldanha!... – em nada ajudaria a formar estruturas e hierarquias.

Não, por mim, e por aqui, será assim o nosso pensamento. A nossa fidelidade à Coroa. Afinal, o nosso Reino.

Chamem-lhe tolice. Mas à gente da minha terra não proponho mais do que prosseguir e sonhar um diferente devir. O que é muito mais do que pouco. Queremo-nos assumidos e somados para o dia do grande Ideal.

O qual, acreditamos, chegará. Paulatinamente, conforme vou sustentando perante os meus pares famalicenses, depois de uma IV República, necessariamente de transicção. Algo em que todos, creio, deviam pensar. Uma IV República que substituirá a sua desgraçada, miserável, antecessora, caindo sem parar de podridão. Uma República com outra gente, menos fechada, em que a El-Rei sejam proporcionados os meios de se apresentar como uma alternativa capaz de vencer o lixo maçónico que nos tolhe.

Para já, vai sempre crescendo a ala dos menos enérgicos, talvez, mas categoricamente afirmando – em caso de referendo voto na Monarquia...

 

(Publicado na Real Gazeta do Alto Minho, nº 24)

 

 

De Chaves a Faro (EN2) - VII

João-Afonso Machado, 03.07.20

Paragem em Mora para o almoço, com uma rápida ronda pela vila. Era feriado. Lá para o centro, um restaurante aberto, uma fila imensa à porta. Tudo o que desapetecia. Era o Afonso, um nome magnífico, cheio de realeza, e uma estrela Michelin na porta. Entreolhámo-nos, eu e a minha gentil "pendura", havia que dosear custos. Num breve inquérito, detectámos o estabelecimento do Sr. Hélder Granhão, mais abaixo, comida para o nosso bolso. E assim foi, numa esplanada, as pernas da frente das cadeiras no passeio, as de trás já na rua, a gozar a inclinação refastelados, mais um belo bacalhau à Brás. De vinho, uma caneca cheia de zurrapa branca da casa. Em tempo de guerra, não se limpam as espingardas...

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Fez até a sua aparição um velho portuguese pointer, um sobrevivente da crise Lehman Brothers, caçador de outros tempos, impávido ante a situação geral do País. Fosse na sua juventude, ia tudo corrido à dentada. E ali nos fizemos amigos e o abracei e fui correspondido. Com a sua bênção voltámos à estrada.

Corremos rectas como elas são - infinitas. Disso tomámos notas nas Alcáçovas.

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O calor arrasava. Determináramos ainda uma paragem em Aljustrel. As vilas alentejanas assumem, por vezes, a fisionomia de um vício.

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E de lá vim com imagens de moínhos de vento dos idos dos burricos enfarinhados, memórias da minha querida Mãe, museus, tumbas ao léu, máquinas ainda produtivas, sabe-se lá!... O alcatrão tomara conta de nós e Almodôvar era uma fixação.

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Entre andorinhas ainda a tirar o brevet e uma sede de concelho passada à espada, quero dizer, dizimada por vistas curtas, ensonadas, ficaram lugares do melhor manuelino. Pouco mais.

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Salvaguardando, é claro, os meus velhos amigos pintassilgos. Finalmente, a cama, o dormir, o nada.

O dia seguinte seria o último. E envolvia a travessia da serra do Caldeirão, um deserto ondulado, com pêlos de sobreiro e outros de rapar a direito, sem lavores de pedo-manicure. No caminho, uma surpresa em Vale de Maria Dias (estes nomes, estas paragens...).

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O antigo edifício da Junta Autónoma das Estradas e a sinalização das distâncias que faltavam percorrer. S. Brás de Alportel era já ali... Muito aliviado pelos seus jacarandás. E muito construído, muito à pressa, como se fosse já correndo para mergulhar nas ondas do mar... Estávamos no Algarve!

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O foguete acelerara ao máximo. Faro, por fim!!! E depois das tradicionais rotundas o marco que, verdadeiramente, assinalava a chegada. Era o mítico km 738.

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Tinha praça condigna, em seu redor. Tiradas as fotografias da praxe, fomos a umas sardinhas apaziguantes. Faltava outra tanta viagem - agora de sul para norte...

 

De Chaves a Faro (EN2) - VI

João-Afonso Machado, 01.07.20

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Já de Castelo de Vide, ao longe, no cimo da serra, se avista Marvão, a "Sintra" do Alentejo. Seria obrigatória uma visita demorada, depois de passada a muralha, de lupa atenta a miríades de pormenores e grandiosidades de primeira água. Mas o cansaço era enorme e reduzida foi a volta, sem mesmo sairmos do carro. Haverá outros dias para fazer, um a um, tantos becos, tantos largos, tanta história. Anoitecera já, quando chegámos ao vizinho lugar da pernoita, a Escusa. O frio incutia respeito.

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E, de manhã, o passeio de reconhecimento por mais uma pacata aldeia alentejana, este muito de gaiolas de canários. Terra de santo sossego e um lindíssimo fontenário, mas desprovida de cafés abertos. Sem, sequer, um copo de leite cá dentro, demandámos outras paragens.

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Percorremos o túnel arbóreo da Portagem, retrato vivo das estradas de antigamente. O próximo destino - sempre de fugida - seria Portalegre, capital de distrito e cidade monumental.

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O castelo... A Sé... Mais a promessa de retorno de dois viajantes que já iam demasiadamente embalados... - para o fim da viagem.

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Mas agora era ainda apenas o fim do desvio à EN2. Chegara a hora do almoço, e a fome sobrepunha-se à vontade de vasculhar as belezas de Portalegre.

Assim - novamente na estrada. 

 

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