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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"O «Vivas» na R. Vasconcelos e Castro"

João-Afonso Machado, 09.07.20

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Abriu em 1965, sob a batuta do Sr. Isac Vivas, como pensão e restaurante. O que fazia todo o sentido porque – os mais velhos estarão lembrados – ali, na Rua Vasconcelos e Castro, estacionavam as caminhetas oriundas de todos os pontos cardiais. Chegavam de Braga, de Guimarães, do Porto, de Santo Tirso, da Póvoa de Varzim… Ou para lá se dirigiam, e em Famalicão carregavam e descarregavam. Na dita artéria ou na vizinha Alves Roçadas. Por isso, a animação constante nestas bandas, com as muitas empresas de camionagem a marcar garrida presença: as do Abílio (a marca famalicense), do Marinho, do João Carlos Soares, a Pacence, a Ferreira das Neves… Haveria esperas, atrasos, a fome do almoço, pernoitas, até. Para tudo isso, o Vivas  chamava, convidava, ali ao lado, mesmo à mão de semear.

Tudo mudou. Veio a “Central”, vieram os autocarros, muito menos chocarreiros, corredores de longas distâncias, não raro de vidros fumados, já não há janelas que se abram, nem cabeças de fora num último adeus. Muito menos bagagem empoleirada no tejadilho daqueles foguetes de auto-estrada. A Rua Vasconcelos e Castro esmoreceu, perdeu movimento, e o Vivas teve de se adaptar. Transfigurou-se em café. E assim continuou vivendo, agora já na idade dos 55 anos.

Em 1994, entretanto, faleceu o Sr. Isac Vivas. Os filhos prosseguiram o negócio. Talvez, no ramo, o mais antigo de Famalicão.

Mas não é só. O Vivas soube manter, até hoje, quase tudo do antigo e saudoso café. Ali se regista o totobola e o euromilhões, ali se compram raspadinhas e se sonha com fortunas fáceis e repentinas. Ao balcão, enquanto o Sr. Carlos manipula a maquineta, os clientes numa ânsia de casas novas, da piscina, das viagens, do Ferrari. Ou talvez apenas de uma vidinha mais folgada, com nada de ais! e ralações.

No Vivas se lê o jornal ou toma uma meia de leite a empurrar a torrada. Demorando a manhã inteira, sem pressa, contemplativamente. De portas amplas para a rua, ainda ali se fuma um cigarro e se assiste e discute acesamente o futebol. No Vivas, os ecrãs são vários e tamanhões, apontando em simultâneo a muitos continentes e campeonatos.

Só agora, com este diabo da pandemia, o Vivas fechou temporariamente o seu bilhar. Um snooker, ainda de muitas tardes de uso e disputa. Mas continua com o que eu já considero uma arte, um requinte, algo difícil de encontrar por aí – uma boa caneca, fresquinha, de cerveja de pressão.

São assim os quietos momentos passados no Vivas, de olhar no passeio onde andarilham memórias antigas; ou lendo o jornal, ouvindo novidades que surgem aos soluços, sem altura certa, ora vindas daqui, ora de além; ou, quando não, assistindo a uma empolgante partida de futebol. Agarrando a caneca pela asa, como há décadas nas cervejarias do mundo académico. Sorvendo mais um gole como se me espreguiçasse até esses anos já tão longínquos. Impera a calmaria, o mundo perdeu subitamente a pressa. Ressalvando o cliente de quem se ouve a voz, convicto a tentar a sua sorte nos milhões…

 Aconteceu até um dia ali realizar parcialmente esse belo sonho de uma fortuna rápida – comprei uma raspadinha e ganhei vinte euros!

 

(Da rúbrica Ouvi nas Caminhetas, in Opinião Pública de 09.JUL.2020)