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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Novidades que o fossem

João-Afonso Machado, 18.06.20

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 A sua rosada memória está muito entre os de cá. O Sr. Rito, um adiantado-mor da época, dividia a cidade, o seu mundo, entre improdutivos carros-de-bois e os motores de fértil cilindrada, buzinando familiarmente à porta da sua pensão.

Recebia os recém-chegados com os braços abertos há muitos anos de fidelidade e estadia marcada. A época estival era o  seu mealheiro, benza o Poderoso o charme das termas, e se lhe achegassem os tantos sotaques de outras terras. O Sr. Rito deles vivia e muito os estimava. Recebia-os ao modo dos seus hóspedes, em fato de linho claro e gravata colorida até ao umbigo. Os carros dos viandantes anunciavam-se carregados de famílias, e seus afins ou serviçais, para estadias de semanas.

Havia quartos para todas as posições sociais, um encanto os do último andar, todo avarandado e charutado em cálidos poentes. No meado de Julho, por norma, a reserva era de uma certa gente do Porto, abonada, a ocupá-lo por inteiro. Diária completa, almoços e jantares na Pensão Rito.

Havia de tudo, e na altura estival a pensão inchava. Repleta de gerações, as mais novas da quais já contrariadas, de mente fixa nas praias e nos fatos-de-banho... Mas sempre obediente ao alinhado cabelo do patriarca, sem gravata sentindo-se desnudado, homem de sombras nos seus passeios diários, em paletó, ao longo do rio. A regorgitar o seu ódio pelos areais da beira-mar.

Chapéuzinho de palha meio entornado, o cliente-pai não esquecia os sorrisos matreiros dos presentes, dessa vez que pisara a praia. Burguês até à medula, resolvera acabar os seus dias nas termas. Ao volante das mais opulentas refeições. Nortenhas, carregadas de gordura porcina até Deus-Pai se impresssionar e compadecer. Porque, previamente à apoplexia, rumavam as vítimas os caminhos das águas - sulfurosas, ferruginosas, fumegantes à nascente ou cristalinas e leves, todas capazes de perdoar o pecado da gula. E esse era o confessionário por onde passavam os prevaricadores da comezaina.

A Pensão Rito prosperou décadas. Era obra do Sr. Rito (Pai), um auto-proclamado íntimo de Afonso Costa, cujo retrato se mantinha na recepção. Não havia perguntas, - apenas um olhar vago sobre tanta papada, a estranha expressão de olhos pequeninos e amarelada pelo tempo. Diabetes?  Fel? - o fígado e a vesícula num canho? Sobrepunha-se o silêncio, a discrição, decerto seria o Pai Rito... Abençoados tempos de ignorância e alheamento político, capazes de transformar um carrasco em supliciado.

O Rito Filho, não venceu os Anos 50. Morreu, repentinamente, sem sequer escangalhar a risca da sua grisalha cabeleira. Diz quem o acompanhou à última morada, estava sereno na urna, muito compostinho, todo ajeitado, sem sombra facial de padecimento. Solteiro, como herdeiros ficaram os sobrinhos, de sempre radicados em Lisboa, nada querendo saber da pensão que logo congeminaram vender. Dissidências diversas entre eles estagnaram o propósito, e acarretaram a ruína actual.

Choramingam o tempo e a vizinhança: - Quem a viu e quem a vê!... -  E já ninguém sabe contabilizar os comproprietários daquele ilustre poiso, há meio século atrás de tamanha florescência.

Mas regozija-se últimamente a terra. Um sobrinho-bisneto do Sr. Rito, homem bem sucedido na vida, parece ficará com  o edifício. E investirá nele. Estarão de volta as águas exóticas, o retorno ao descanso termal. Contando, além dos ferruginosos, sulfurosos, aquentados líquidos, - haja massagens também. Com pedras roliças e algas, bem entendido.