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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

De um plano grandioso a uma reforma tanina

João-Afonso Machado, 01.06.20

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Quando eu era rapazote... levei comigo no bote... uma ideia atrevida... O jovem filho mais velho do meu Pai imaginou-se, um dia, reformado e edificando uma fabulosa colecção de patos. De anatídeos, não subsistam confusões. Já muito tomado pelos bicos de papagaio, aí cultivava eu não sei quantas e quão coloridas raças: os trombeteiros, os mandarins, os zarros, os reais, as marrequinhas, os bufos, o ror completo das espécies exóticas que a gente vai topando por esses jardins. Isto tudo sem sequer me lembrar, patos e patas, por uma letra apenas, não são o mais completo desempenho de infantilidade ou pouca-vergonha.

Sobrevindo essa incómoda noção mais tarde - juntamente com outras que não facilitariam o programa - ainda assim dispus-me a ensinar alguns rudimentos de boas maneiras e de moral à pataria. Sim, seria um pastor evangélico na minha reforma: do bando de anatídeos e da sua sólida formação catequética. Seria um apologeta, os pés descalços a abanarem-se na água verdinha e morna do laguinho, muito flutuada por penas dos meus patinhos. Revestido de uma túnica e capuz já muito comidos da traça, mais o bordão pintado da cor dos limos.

Ensinar-lhes-ia coisas puras como a castidade dos zarros além das zarras, ou a dos mandarins não sendo com mandarinas. E por aí for, proclamando aquilo não seria um parque público, mal frequentado e desavergonhado; antes um espaço elitista, um anfiteatro da Ciência internacional.

De tão fiel à ideia, quem me conhece sabe, desde 2004 não atiro aos patos nem, por qualquer forma, os mato.

Ensaiei diferentes quá-quás, visando lidar com os seus vários dialectos. Dispus-me a amá-los como Abraão amou a sua descendência, depois de quase jugular o filho Isaac. Em mim, também, a mão de Jeová...

Mas correu mal. A Apologética não é comigo, cada vez mais percorro os trilhos exegéticos. Estou velho, carregado de hábitos cenobitas. E, com dois perdigueiros, a manter patos o meu destino seria o Inferno, fatalmente. Além disso, vem aí uma reforma miserável.