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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Da toca da raposa...

João-Afonso Machado, 12.05.20

TOCA RAPOSA.JPG

... Fogem cinquentenárias lembranças de um buraco enorme e muito concorrido, a avaliar pela terra solta na entrada. Havia um outro, ao lado, e os fox terriers da nossa meninice, ali chegando, davam em doidos, sumiam cavidades abaixo e regressavam às recuas, danados porque as raposas lhes tinham trocado as voltas.

Volvidos 50 anos, o buraco está lá, tragado pelo folhedo que se acumula, pelos musgos, carcomido e mirrado na sua velhice. Mas permaneceu, mesmo em ruínas, como um verdadeiro castelo raposeiro, provavelmente cheio de fantasmas e histórias. Como aquela que decorre num penedo mais acima um pedaço. O Pai era ainda rapaz novo, fazia a sua espera e a raposa apareceu. Ficou ao primeiro tiro, estendida, moribunda, e o Pai, para poupar um cartucho, resolveu pôr fim ao sofrimento da bicha com um golpe da coronha da espingarda. O resultado foi a mesma se ter partido e o arranjo subir a uns 200$00, elevadíssimos à época.

O Pai gostava de batidas. Todos os anos organizava duas e acompanhei-o muitas vezes. Puxei-lhe a manga a chamar a atenção para uma ladina que se esgueirava, sorrateira, nas suas costas. Lembro o tiro, a cambalhota dela no ar, os muitos galgos e podengos das matilhas de Fradelos.

Nos meus 15, 16 anos tive, por fim, autorização para participar armado com a velha espingarda do Bisavô, que o Pai depois me ofereceu. Uma arma francesa, de cães, lindíssima, hoje exposta em repouso da sua intensa actividade venatória. Dava-me boleia o fiscal do leite, que Deus tem, velho malandrim sempre obsequioso, na sua furgoneta rumo aos montes das grandes freguesias a poente.

Raposas, via-as aos milhares, povoando já mortas ou ainda vivas a minha imaginação. Mas só aí... Muito posteriormente comecei a frequentar batidas na Região Centro, onde sobretudo cacei pratalhadas de feijoada no imprescindível almoço de confraternização final.

Mais tarde, ainda, convenci-me as raposas não são animais para abater. Meritoriamente espertas, bonitas, graciosas, o seu fim nem o argumento da samarra o justifica, até porque já tenho uma. O dos ataques aos galinheiros também não, as penosas põem ovos suficientes para satisfazer o conjunto inteiro da Humanidade e da Raposidade. Além de que as lixeiras nos povoados proporcionam hoje um cardápio variado, gourmet, que as nossas amigas de longe preferem.

Por isso muitas deixei já passar em montarias, finórias, as primeiras a escapulirem-se das matilhas, lampeiras, descaradas às vezes. Mas enfiar-lhes uma bala para quê? Aliás, nas montarias hei sempe o azar de empunhar a arma quando passa um animal fotografável; e a máquina em maré de bicho bravo a jeito. Não haverá pacifista que se incomode com a minha presença em tais ocorrências...

Fecho a tampa da caneta já cansado de tão longa caminhada. E olho para trás: pouco me acompanharam até ao fim... Vou pensando nas teias de aranhas, nas centopeias, nos ossículos que a velha cova, ainda mais espremida, guardará nas suas entranhas. E tomado pelo pó das décadas, lembrando raposas quase da minha idade, os latidos do Bi, da Bisca, do Jau, tossicando saudades e mais saudades, abro uma cerveja a recompor-me. À vossa!!!