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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Um passar de olhos sobre o Porto

João-Afonso Machado, 28.04.20

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Lá fui hoje à Invicta, entregar uns papeis urgentes e, felizmente, não interceptados pelas forças da ordem. Fui, devo reconhecer, atestado de curiosidade: como iria reencontrar o meu poiso de trinta anos, entre estudos e vida profissional?

Pois sempre direi, dei de caras com um Porto soalheiro, o trânsito reduzidíssimo, um Porto de Agosto adiantado e dengoso, sem a maldita praga dos turistas. Um Porto acolhedor e muito mascarado nas ruas.

(Um Porto este ano não são-joaneiro: uma fatalidade para os tripeiros, uma felicidade minha se, então, por lá me encontrasse... Isso sim, isso para eles é que é a catástrofe)

Como quer que seja, um Porto activo. De sentinela, mas sem que lhe tremessem as pernas. É, certamente, de justiça pensar nos quantos cercos o Porto já passou (todos eles trazendo consigo o sofrimento dos canhões e das doenças e da fome...), na calamitosa passagem de Soult vindo do Norte, no claro e orgulhoso sentido das estátuas que adornam o obelisco da Rotunda da Boavista. Na igreja de costume, um velório: pouco participantes, quase todos de máscara, um instante de dor à vista, os nossos dias são assim, o destino também, encaremo-lo, creiamos.

Naturalmente, os portuenses previnem-se e defendem-se. Mas a vida continua e os sorrisos - francos, não o esconderijo de qualquer ideia esquiva - e a firmeza da fala também. Constatei-o hoje, no trato com as pessoas a quem me dirigi. Cá vamos! - revigoravam-se; - A ver no que isto dá...

"Isto" era a doença. De que qualquer normal humano tem medo. Mas doenças surgem para que lutemos contra elas, perdendo ou ganhando; jamais para que nos escondamos atrás delas, miando pretextos choramingados para a paralisia da vontade, para a suspensão da existência.